Concebida inicialmente para abrigar aproximadamente 50 mil pessoas, Goiânia viu sua população disparar ao longo das décadas. Segundo estimativas recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a capital goiana atingiu a marca de 1.511.709 moradores, evidenciando uma transformação expressiva que vai muito além dos números.
O traçado original e a herança do Centro
Mais de noventa anos após a fundação da nova capital, a estrutura central concebida no projeto original ainda se faz presente na região central. Elementos como a Praça Cívica, funcionando como núcleo político e administrativo, além das avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins, mantêm-se firmes como os grandes eixos viários da cidade, acompanhados por áreas verdes e edifícios históricos preservados.
A preservação dessa geometria urbana é amparada legalmente. A Portaria nº 201, de 2024, emitida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), garante a proteção da hierarquia da Praça Cívica como ponto irradiador das perspectivas criadas pelas vias que convergem para o local.
Especialistas ouvidas sobre o tema destacam que a leitura da primeira Goiânia ainda é nítida na paisagem urbana cotidiana. “Mesmo com todas as transformações, quando caminhamos pelo Centro ainda conseguimos reconhecer a lógica concebida por Attilio Corrêa Lima e posteriormente desenvolvida por Armando Augusto de Godoy”, afirma a arquiteta e urbanista Thaissa Finotti.
No mesmo sentido, a engenheira civil Marielle Vieira Felix Rocha pontua: “Sobrou a estrutura fundamental do Centro, a Praça Cívica como marco simbólico, os grandes eixos viários, parte das áreas verdes, edifícios históricos e, sobretudo, uma lógica urbana que ainda pode ser lida na paisagem”.
Mudanças nos usos e o impacto imobiliário
Apesar da permanência do desenho arquitetônico, a dinâmica de funcionamento dos espaços sofreu adaptações profundas. Espaços que antes possuíam funções específicas, como áreas de carga e descarga na Avenida Goiás, acabaram transformados em estacionamentos, enquanto marcos como a antiga Praça do Bandeirante perderam parte de sua leitura original após intervenções viárias.
O crescimento populacional acelerado e a abertura de loteamentos privados a partir dos anos 1950 alteraram drasticamente a lógica de ocupação territorial. Para a pesquisadora Maria Ester de Souza, a força do mercado influenciou diretamente o modelo de desenvolvimento da capital. “O valor da terra, a terra valorizada para um negócio imobiliário, interfere demais em qualquer ideia de planejamento e a lógica fica sendo a lógica do mercado”, afirma.
O futuro do planejamento urbano
A expansão territorial e o salto demográfico não significam, contudo, que a cidade tenha perdido a capacidade de ser planejada. Para as especialistas, o desafio atual consiste em integrar o patrimônio histórico às demandas contemporâneas de uma grande metrópole sem recorrer ao engessamento.
“Uma cidade pode crescer muito além de sua escala original e continuar sendo planejada. A questão fundamental é como esse crescimento é conduzido”, pontua Marielle Vieira Felix Rocha.
Sobre a necessidade de novos planos diretores, Thaissa Finotti reforça: “O plano original não poderia, obviamente, prever a Goiânia do século XXI. O que precisamos questionar é se conseguimos construir bons planos sucessivos para responder às novas condições”.
A visão de que o passado e o presente podem caminhar lado a lado é compartilhada por Maria Ester de Souza, que resume a questão da coexistência urbana: “Você não precisa demolir o que estava aqui no passado para tornar novas construções importantes. Não, eu acho que tem espaço demais para todo mundo”.
Por fim, Marielle destaca que o papel da conservação vai na contramão da estagnação: “Preservar não significa congelar a cidade”. A meta para os próximos anos, segundo Thaissa, é utilizar o projeto original como base para moldar o futuro: “O desafio é justamente usar o planejamento original como referência para construir a próxima Goiânia, e não tentar congelá-la no passado”.