Joseph brodsky e a paixão literária pela veneza invernal

Nascido em Leningrado em 1940, o escritor e ensaísta russo Joseph Brodsky enfrentou condenação a trabalhos forçados em 1964 e o exílio da União Soviética em 1972, fixando residência nos Estados Unidos. Para o laureado com o Nobel de Literatura em 1987, que faleceu em 1996 aos 55 anos, Veneza representou um refúgio particular onde retornou durante dezessete invernos consecutivos, longe das multidões de turistas.

A arquitetura dos sentidos: olfato e luz na laguna

A chegada à cidade italiana era marcada primeiramente pelo olfato, evocando o cheiro de algas geladas que remetia à sua infância nas margens do Báltico. Em seguida, revelava-se a iluminação invernal, descrita pelo autor com precisão microscópica. ‘Ah, a luz do inverno nesta cidade!’, exclama o poeta: ela ‘tem a extraordinária capacidade de intensificar o poder de resolução do nosso olho até à precisão microscópica’.

Encontros literários e o peso da história

Durante sua estadia em novembro de 1977, a convite da Bienal sobre a Dissidência, o autor acompanhou a ensaísta Susan Sontag à residência de Olga Rudge. No local, o debate sobre o legado de Ezra Pound evidenciou divergências políticas e estéticas. Posteriormente, ao caminhar pela Fondamenta degli Incurabili, o ensaísta celebrou o poder de sugestão da linguagem e o peso histórico contido nos nomes dos locais venezianos.

Reflexões sobre o tempo e a fidelidade amorosa

Ao longo de suas imersões na cultura local, o ensaísta refletiu sobre a natureza da dedicação afetiva e da própria criação artística. Brodsky conta que se tornou ‘um ser de passagem’ e que o que mais o desanimava era ‘a impossibilidade de convencer o sonho da minha presença nele’. Julga que se poderá falar de fidelidade ‘quando alguém volta ao lugar do seu amor, ano após ano, na estação errada, sem garantia de ser correspondido’.

A trajetória do autor russo na Itália culminou em sua última viagem. Após enfrentar problemas de saúde que exigiram sua partida temporária para Paris, seu desejo final foi cumprido em 1997, quando seus restos mortais foram trasladados para a ilha-cemitério de San Michele, eternizando sua união com a laguna que tanto amou e descreveu.

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