O último confronto televisivo antes do segundo turno das eleições presidenciais, transmitido pela TV Globo na noite de sexta-feira (23), foi tomado por forte tensão, acusações de corrupção e ataques verbais diretos entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os postulantes ao Planalto chegaram para o encontro em situação de empate técnico nas pesquisas de intenção de voto.
Troca de ofensas pessoais e pedido de desculpas
A animosidade escalou quando o parlamentar criticou a política tributária da gestão atual e disparou que o chefe do Executivo recolhe recursos da sociedade com uma das mãos e recolhe com os “nove dedos”, fazendo alusão à perda de um dedo do petista em um acidente laboral ocorrido em 1964. Em resposta imediata, o presidente pontuou sua trajetória de trabalho desde a juventude e rebateu afirmando que não aceitaria tal tratamento vindo de um “miliciano”. Diante da cobrança, o senador recuou e se retratou publicamente: “Se eu te ofendi porque eu te chamei de nove dedos, eu te peço desculpa de verdade”, declarou, retomando logo depois os questionamentos sobre os rumos do país.
Propostas para a economia e embate sobre o custo de vida
No campo econômico, o candidato do PL direcionou seus ataques aos juros altos, ao encarecimento do custo de vida e ao endividamento generalizado das famílias brasileiras. Entre suas propostas, apresentou a ideia de pausar transitoriamente o pagamento de débitos por parte de cidadãos e corporações, além de garantir correções salariais superiores à inflação. Por sua vez, o representante do PT enfatizou o alcance de seus programas sociais, a recuperação do poder de compra do salário mínimo e os investimentos em infraestrutura de seus mandatos, cobrando do adversário quais cortes orçamentários faria para manter a estabilidade fiscal. Ambos manifestaram convergência ao apoiarem a gratuidade no transporte público aos finais de semana.
Segurança pública e momentos de emoção
O clima voltou a ficar tenso quando o atual mandatário trouxe à tona o falecimento da menina Ana Clara, de cinco anos, atingida fatalmente por um disparo de fuzil em Niterói (RJ) no ano de 2021. A mãe da vítima, Cristiane Gomes da Silva, acompanhava o programa como convidada no estúdio. O chefe de Estado cobrou explicações do senador por sua atuação jurídica em prol do policial militar indiciado pelo homicídio. Ao se defender, o político prestou solidariedade à mulher, mas acabou equivocando-se ao chamá-la pelo nome da filha, reiterando sua convicção na inocência do agente. O debate também abarcou temas como o enfrentamento ao crime organizado, a expansão de facções e a regulamentação das apostas esportivas virtuais.
As hostilidades voltaram a dar o tom no bloco derradeiro, com recíprocas acusações sobre escândalos de corrupção envolvendo nomes do meio jurídico e financeiro, além de questionamentos acerca de presentes de elevado valor monetário. O confronto ocorreu no ápice de uma corrida eleitoral acirrada, com levantamento do Datafolha divulgado na véspera apontando exatos 50% dos votos válidos para cada um dos concorrentes, após um primeiro turno em que Flávio obteve 47,03% contra 45,16% de Lula.