Ajuste fiscal é apontado por economistas como chave para acalmar investidores

A suspensão das negociações na bolsa de valores brasileira por meio do mecanismo de circuit breaker, adotado após quedas acentuadas motivadas pelo resultado das urnas, evidenciou um cenário de instabilidade que não se dissipou imediatamente. Especialistas apontam que as reações dos investidores refletem tanto a cautela com o futuro da economia quanto preocupações estruturais ligadas ao endividamento público.

Incertezas econômicas e o comportamento da dívida interna

Para o economista Everaldo Leite, a venda massiva de ações decorre das dúvidas em torno da condução econômica do próximo governo. “O mercado estava esperando que fosse o Flávio Bolsonaro. Mas ele espera do próximo governo que faça uma reforma fortíssima, no sentido de gastar menos, por causa da dívida. E aí gera aquela ideia de que daqui a pouco o governo não consegue mais gerar dívida.”

Apesar da cautela, o especialista pondera que o quadro de endividamento brasileiro é predominantemente interno, o que diminui o risco de insolvência do país. “Isso não acontece porque nunca aconteceu em país nenhum, quando a dívida é uma dívida interna. Se a dívida fosse externa, ela realmente seria perigosa”, afirma. Ele classifica os danos atuais como passageiros e projeta uma rápida normalização da bolsa.

Fatores econômicos e a busca por segurança financeira

Já Renato Ribeiro relembra que o acionamento do circuit breaker ocorreu anteriormente em momentos de grande crise, como na pandemia de Covid-19 e durante os escândalos do petrolão. O economista aponta a relação direta entre a retração nos investimentos e a alta da moeda americana. “O dólar não é somente uma moeda, o dólar é uma commodity financeira, porque as negociações, visto importação e exportação, estão listadas em dólar.”

Para Ribeiro, a reação do mercado é guiada por fundamentos da economia, como a taxa básica de juros elevada e o patamar das contas públicas. “Então, eles resolveram tirar o dinheiro até que eles consigam enxergar de uma maneira melhor”, diz. O economista reforça a necessidade de medidas estruturais: “No curto prazo, não tem o que fazer. Mas temos que torcer para que a gente tenha um ajuste fiscal e para que a gente tenha uma seguridade econômica que demonstre isso para o mercado de uma maneira bastante positiva, para que a gente gere confiança nesse investidor internacional.”

O peso da dívida pública e a autonomia do Banco Central

No mesmo sentido, a economista Greice Guerra destaca que a dívida pública em patamares elevados eleva a percepção de risco entre investidores estrangeiros. Ela projeta um cenário prolongado de desconfiança e ressalta que declarações recentes sobre a gestão monetária geraram repercussão negativa. “Vai ser os dois pés atrás, eu diria. Porque, inclusive, no próprio debate, na sexta-feira, ele pincelou que é contra a autonomia do Banco Central, o que ficou muito ruim.”

Por fim, a especialista defende a compatibilidade entre a responsabilidade fiscal e a manutenção de programas sociais, desde que haja rigor no controle das contas. “Basta a boa vontade do governo em colocar um teto e preservando as políticas sociais. Mas teria como, sim, agora, falar que vai dar ônibus de graça para a população todo final de semana e que vai perdoar a dívida dos MEIs… Não que isso seja ruim, mas alguém tem que pagar”, conclui.

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