Aos 19 anos, João Paulo Miguel dos Santos dividia o tempo entre os estudos, o trabalho como segurança e a paixão pela música rap. No entanto, uma overdose de cocaína em 2011 mudou drasticamente sua rotina, deixando-o em estado de coma por três anos. Ao despertar, ele enfrentou severas dificuldades na fala e na mobilidade. Hoje, aos 33 anos, ele superou as adversidades, cursa Direito em Goiânia e alimenta o firme propósito de se tornar juiz.
O despertar e a difícil recuperação em casa
Quando recuperou a consciência, João Paulo teve a nítida sensação de que havia apenas dormido e acordado normalmente, sem perceber a passagem do tempo. Deixou o hospital acamado e dependente de uma traqueostomia para respirar. A impossibilidade de falar transformou ações simples em grandes desafios diários. Sem conseguir emitir sons, ele recorria a batidas na parede ou na janela para chamar a atenção da mãe e da irmã, que precisaram decodificar seus movimentos oculares para entender suas necessidades básicas.
“O que eu mais queria era conseguir falar. É uma sensação muito ruim não conseguir se comunicar”, contou.
Retomada dos estudos e adaptação escolar
Disposto a reconstruir a própria vida, o goiano decidiu voltar a estudar em 2019 para concluir o ensino médio. A busca por uma instituição foi árdua, sendo rejeitado por 15 escolas antes de conseguir uma oportunidade no Colégio Estadual João José Coutinho, localizado no Conjunto Vera Cruz I, na capital.
Mesmo sem infraestrutura adequada para cadeirantes, a direção da escola efetivou a matrícula e providenciou melhorias rapidamente. Embora temesse o preconceito dos colegas, João Paulo foi acolhido de forma surpreendente por alunos e professores, concluindo a etapa escolar em 2021 e abrindo caminho para o ensino superior.
“Eu pensava que ia sofrer com preconceito na escola. Ao contrário, fui bem recebido pelos alunos e professores. Isso nunca vou esquecer”, afirmou.
O ingresso na faculdade e o objetivo na magistratura
Atualmente no terceiro período de Direito em uma faculdade de Goiânia, o estudante direciona seus esforços para a carreira jurídica. A escolha pelo curso também está ligada ao desejo de compreender melhor a legislação para defender os direitos das pessoas com deficiência, enfrentando diariamente os problemas de acessibilidade urbana.
Em paralelo às aulas presenciais e à reabilitação contínua que realiza desde 2021 no Hospital Sarah, em Brasília — onde já recuperou cerca de 90% da capacidade de fala —, ele mantém o foco inabalável na aprovação em futuros concursos públicos.
“Quando eu comecei a faculdade, meu objetivo era ser juiz. Não é fácil como achei, mas não é impossível. Para ser juiz, primeiro tem que advogar. É um processo, mas, com fé, força e perseverança, eu vou conseguir”, afirmou.
Olhando para o passado e para as pequenas grandes conquistas, como conseguir se sentar sozinho e dar os primeiros passos com um andador, João Paulo enxerga na música e na própria trajetória a motivação necessária para seguir adiante. Para ele, o esforço diário culminará em uma grande vitória pessoal e profissional.
“Ah, vou poder olhar para trás e falar: valeu a pena todo o esforço, todas as vezes que dormi tarde e acordei cedo. Vai ser o dia, nem imagino. Essa música me inspira demais e diz tudo”, afirmou.