Quase quatro décadas após o maior acidente radioativo do país, o físico nuclear Walter Mendes Ferreira será homenageado com o título de cidadão goiano pela Assembleia Legislativa de Goiás (Alego). A honraria, proposta pelo deputado estadual Paulo Cezar Martins (MDB), reconhece a atuação do especialista na identificação da contaminação por Césio-137 em Goiânia e nas primeiras medidas de emergência adotadas em 1987.
O dia em que a tragédia quase foi maior
O episódio crítico aconteceu em 29 de setembro de 1987, quando Walter, então com 29 anos, foi convocado para examinar um objeto retirado de um equipamento de radioterapia abandonado no antigo Instituto Goiano de Radiologia. Naquela época, os instrumentos disponíveis não conseguiam determinar a natureza do material ou a dosagem exata de radiação.
Antes de alcançar a Vigilância Sanitária, o cientista tentou medir a radiação de longe. O nível captado pelo detector foi tão surpreendente que ele achou que o aparelho estava quebrado, exigindo o uso de um segundo equipamento antes de voltar ao local.
Foi exatamente nessa fase inicial que ele evitou um desastre ainda maior. “Eu cheguei no exato momento que ele me disse que ‘vou jogar no rio’. Eu falei: ‘Não faça isso, porque eu não sei que material é esse’.”, relembrou o físico sobre a tentativa de um bombeiro de descartar o cilindro metálico na água.
Triagem e protocolos globais
Depois de confirmar o perigo, o pesquisador participou do alerta às autoridades e das ações iniciais para encontrar as vítimas. De acordo com o relato, 26 pessoas foram recolhidas antes mesmo da chegada da equipe da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
Os contaminados foram levados para o Estádio Olímpico, onde uma estrutura de triagem e atendimento foi montada antes que especialistas federais assumissem o comando da operação.
Para o homenageado, a experiência na capital gerou legados importantes para a ciência. “Tudo que o mundo tem hoje sobre esse tipo de acidente é oriundo do nosso aprendizado aqui. Em que pese toda a tragédia que ocorreu, nós somos hoje uma referência no mundo”, pontuou.
Evolução tecnológica na radioproteção
O físico também ressaltou que os recursos atuais facilitariam muito o trabalho das equipes, permitindo localizar substâncias radioativas com mais velocidade e menor risco de exposição.
“Hoje eu tenho detector que, se eu for ao local, imediatamente identificaria que material é aquele. Naquele tempo não tinha”, explicou, citando também o uso de drones com capacidade para levantamentos radiométricos a distância.
Reconhecimento coletivo e laços com o estado
Ao falar sobre a comenda da Alego, o físico dividiu o mérito com os demais trabalhadores que enfrentaram a crise sanitária, mencionando servidores estaduais, equipes da CNEN e gestores da época, como o então governador Henrique Santillo e o pesquisador Rex Nazaré.
“Essa homenagem é uma honra, mas eu quero fazer imensamente menção aos 350 servidores do Estado que, durante 90 dias, trabalharam arduamente para deixar Goiânia descontaminada e prosseguir com o acompanhamento das pessoas que foram irradiadas e contaminadas”, declarou.
Por fim, o cientista destacou a forte ligação construída com a região ao longo das décadas. “Eu não nasci aqui, mas vim em 87. Construí meus laços, meus filhos aqui dentro, desenvolvi meu trabalho e minha vida. A partir de hoje, essa ligação ganha uma certidão oficial de amor e pertencimento ao Estado”, concluiu.