O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva orientou ministros e auxiliares a adotarem cautela e evitarem elevar o tom sobre a saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) rumo aos Estados Unidos após a derrota no pleito. A gestão federal busca mitigar desgastes e optou por enquadrar o episódio estritamente como um assunto da alçada da Justiça e da Polícia Federal.
Estratégia de distanciamento e bastidores
A diretriz traçada pelo Palácio do Planalto tem como objetivo afastar o governo central de qualquer narrativa que corrobore o discurso de que a família Bolsonaro sofre perseguição política no Brasil. A instrução foi repassada aos integrantes da administração pública pelo ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Sidônio Palmeira, conforme apuração de bastidores.
A medida ocorreu logo após o presidente criticar abertamente a viagem do adversário político durante as celebrações de seu aniversário no Palácio da Alvorada. Na ocasião, o petista disparou duras críticas à atitude do senador:
“Eu lamento que ele tenha saído do Brasil, porque ele poderia ficar aqui e provar que as acusações não são verdadeiras. Esse ato de sair do Brasil é vergonhoso. Lamentavelmente, a família Bolsonaro é isso, é lamber botas dos EUA”, declarou. Lula afirmou ainda que, se um cidadão “sai escondido do país, é porque deve alguma coisa”. “Quem não deve não teme”, disse o presidente.
Em seguida, o chefe do Executivo manteve o tom crítico e acrescentou: “Não vai dizer lá fora que o Brasil não tem democracia. Se não tivesse, um miliciano não seria candidato a presidente”.
Desdobramentos diplomáticos e relações internacionais
Embora a saída do parlamentar intensifique o debate diplomático entre Brasília e Washington, auxiliares presidenciais avaliam que o episódio não inviabiliza a busca por uma relação pragmática com a futura administração norte-americana de Donald Trump. O governo argumenta que os EUA já acolheram outros expoentes do bolsonarismo anteriormente sem romper os canais oficiais de diálogo e cooperação bilateral em áreas estratégicas, como comércio e segurança pública.
Cronologia da viagem e investigações
O senador deixou o território nacional na noite de terça-feira acompanhado da esposa e das duas filhas, cruzando a fronteira terrestre pela Ponte Internacional Tancredo Neves, em Foz do Iguaçu (PR), com destino à Argentina. De lá, embarcou em um jato particular rumo a Miami, com uma escala técnica no Equador. Com o deslocamento, o parlamentar descumpriu uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que exigia a entrega de seus passaportes em 24 horas.
Flávio Bolsonaro é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo transações comerciais e plataformas de apostas digitais. Já em território norte-americano, o político divulgou e posteriormente corrigiu uma carta na qual tentava desacreditar o sistema eleitoral brasileiro e criticava o Judiciário, além de prometer liderar a oposição à distância.
O pleito presidencial foi encerrado com a vitória de Lula, que obteve 51,79% dos votos válidos contra 48,21% do adversário. O resultado foi validado pelo Tribunal Superior Eleitoral e reconhecido internacionalmente, inclusive por lideranças da direita sul-americana e pelo próprio partido do senador.