Como os sinos da antiga capital de Goiás avisavam atrasos de padres

Muito antes da popularização dos aplicativos de mensagens, os habitantes da Cidade de Goiás, antiga capital goiana, contavam com um método engenhoso para saber se o sacerdote estava atrasado para a celebração religiosa: as badaladas dos sinos. Conhecido como “escorrega-mingau”, o aviso sonoro exclusivo foi inventado por Benedito de Sá Efigênia, um homem negro que atuou por mais de seis décadas como sineiro na Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte. Naquela época, o som dos templos desempenhava o papel de principal canal informativo para a comunidade local, anunciando desde óbitos até festividades.

A linguagem secreta na torre da igreja

Além de avisar sobre a pontualidade das missas, Benedito demonstrava seu estado de ânimo por meio da técnica ao tocar os sinos. Quando se desentendia com o sacerdote, ele manifestava insatisfação de forma silenciosa, executando um toque melancólico no qual arrastava o badalo metálico pela parede interna do instrumento. Essa assinatura sonora era tão marcante que os moradores identificavam sua presença na torre apenas ouvindo o ritmo das batidas.

Estudiosos registraram que o repertório dos sineiros locais incluía nomenclaturas curiosas como “Vira Mingau”, “Vaga-Lume Cai, Cai” e “Moacir”. A execução exigia domínio técnico de força, cadência e intervalos, herança cultural que remonta ao período colonial com forte influência de trabalhadores escravizados e descendentes na música sacra brasileira.

Identificando o perfil de quem partiu

As badaladas também funcionavam como um obituário sonoro, no qual a comunidade distinguia quem havia falecido pelo tipo de sino acionado. O sino de maior porte tocava para homens, enquanto os menores eram reservados para mulheres. Já o falecimento de crianças, carinhosamente tratadas como “anjinhos” pela tradição católica, era comunicado exclusivamente com os sinos pequenos em uma cadência específica.

A historiadora e professora Ana Lúcia de Abreu Gomes destacou que as torres funcionavam como o rádio da época, transmitindo avisos sobre perigos, festejos e funerais. Essa forte presença sonora também foi eternizada na literatura pela escritora Cora Coralina, que retratou os sinos nas despedidas dos habitantes locais.

Patrimônio histórico e a importância dos sineiros

Localizada na Rua Luiz do Couto, em frente à Praça do Coreto, a Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte foi concluída em 1779 pela Irmandade dos Homens Pardos e integra o conjunto do Centro Histórico reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco. O templo, que já funcionou como catedral e sofreu um incêndio em 1920, hoje abriga um museu com mais de 900 peças sacras e obras do renomado escultor Veiga Valle.

O valor dessa tradição ficou evidente em 2017, quando os sinos da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos pretos pararam de funcionar por falta de manutenção, gerando protestos na vizinhança até o retorno dos toques em 2019. O episódio reforça que preservar o patrimônio histórico exige manter vivos os saberes tradicionais, garantindo que os códigos sonoros não desapareçam junto com a modernização tecnológica.

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