Jair do Prado celebra 75 anos e relembra a boemia histórica de Goiânia

Muito antes de se consolidar como o grande polo da música sertaneja no país, a capital de Goiás já contava com uma cena noturna vibrante e repleta de pontos de encontro tradicionais. O empresário Jair Onofre do Prado, amplamente conhecido como Jajá, testemunhou de perto essa metamorfose cultural ao longo dos anos. Aos 75 anos, celebrados recentemente, ele se tornou uma verdadeira referência viva para resgatar os hábitos, personagens e endereços que moldaram o passado da metrópole.

Memórias da boemia e os tempos áureos da MPB

Natural de Joviânia, no interior goiano, Jair desembarcou em Goiânia no ano de 1971 e fixou residência no Setor Central, região onde edificou toda a sua trajetória pessoal e profissional. Em entrevista, o proprietário do Quintal do Jajá e do Jajá Drinks recordou que a juventude daquela época costumava se reunir em locais marcantes como o Chopp Bandeirantes e o Zero Bar. O segundo ponto, localizado na Praça Universitária, atraía jovens com apresentações intimistas de voz e violão embaladas por muita Música Popular Brasileira.

Aquele ambiente era frequentado por figuras ilustres da cena local, a exemplo do cartunista Jorge Braga, do músico Fernando Perillo, do baixista Bororó e do jornalista esportivo Evandro Gomes. “Naquela época, tocava muito MPB. Às vezes tinha samba, e eram os artistas goianos, como o Bororó e o Fernando Perillo. A gente sempre se encontrava por lá”, recorda.

Transformação musical e o crescimento urbano

Com o passar do tempo, a dinâmica da noite goianiense acompanhou o ritmo acelerado da expansão demográfica. Se antes os frequentadores circulavam pelos mesmos estabelecimentos devido à escassez de opções, hoje a malha de bares e restaurantes tomou proporções gigantescas. Para o empresário, a capital expandiu sua identidade sonora, abraçando múltiplos estilos sem perder a essência.

“A diferença é que hoje ficou mais misturado. Tem muito sertanejo, muito samba, pop e rock. Goiânia é uma cidade da música. Quase todos os bares têm som ao vivo. Naquela época, no Zero Bar, era mais MPB, música ambiente, voz e violão. Hoje são muitas bandas, o agito é maior”, compara o fundador. Embora o sertanejo tenha projetado o estado nacionalmente, Jajá reforça que a diversidade é uma marca registrada da cidade: “Naquela época, quem comandava era a MPB. Depois, com a chegada de outros bares, entrou o sertanejo, que foi crescendo. Mas Goiânia não é só sertanejo. É do rock também, tem todos os gostos e ritmos. Hoje temos de tudo”, afirma.

Histórias curiosas e a expansão dos negócios

O período em que a cidade contava com cerca de 200 mil habitantes rendeu episódios pitorescos, como a vez em que seu carro apresentou pane elétrica após uma festa no antigo Oásis e acabou sendo empurrado por amigos da Praça Cívica até o Bairro Popular durante a madrugada. “Eu cheguei e falei: ‘Roubaram meu carro’. Fui para casa e, umas 3h ou 4h da manhã, o pessoal empurrou o carro do Oásis até aqui no Bairro Popular, na Rua 63. Nunca esqueci essa história”, diverte-se.

Antes de erguer o Quintal do Jajá no Centro em 2018, ao lado do sócio Ricardo Coutinho, Jair comandou pontos comerciais no Mercado Popular da 74, como o Bar Para Todos e o Jajá Drinks. O empreendimento atual sobreviveu aos impactos da pandemia de Covid-19 apostando em entregas e almoços, consolidando-se posteriormente como um reduto de resistência do samba de raiz e da gastronomia na capital.

O afeto profundo pelo Centro de Goiânia

A escolha do local para fincar raízes comerciais não foi por acaso, pois o empresário mantém uma forte ligação emocional com a região central, defendendo constantes revitalizações por parte do poder público para atrair novos frequentadores.

“Eu devo muito a Goiânia. O Centro é tudo para mim. Foi onde cheguei, onde tudo começou e onde deu certo. Eu adoro o Centro e valorizo muito essa região. O poder público precisa incentivar para que volte a ser o que era antes”, conclui.

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