No próximo dia 18 de novembro, a procuradora de Justiça Villis Marra realiza o lançamento de seu livro As Mulheres que Habitam em Mim, uma obra literária fundamentada em experiências reais de mulheres que enfrentaram cenários de vulnerabilidade, discriminação e violência. O evento acontecerá a partir das 9h na Casa Rosada, que serve como sede para o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), situado em Goiânia.
Paixão antiga pela escrita e inspiração no Ministério Público
A literatura acompanha a trajetória da autora desde a adolescência, período em que começou a redigir textos aos 14 anos, chegando a ponderar a faculdade de Jornalismo antes de optar pelo curso de Direito. O foco exigido na preparação para concursos públicos e o desenvolvimento da carreira jurídica acabaram distanciando-a temporariamente da produção literária.
“Eu sempre com aquela ideia de que um dia voltaria a escrever, que eu queria escrever, porque eu gosto de escrever, gosto de contar histórias e gosto de observar o ser humano”, afirmou. Segundo a procuradora, a obra também representa a concretização de um projeto pessoal mantido durante anos. “Esse livro também é a realização de um sonho.”
Ao longo dos anos de atuação no Ministério Público, diversos relatos cruzaram o caminho de Villis e marcaram sua memória. Contudo, o aspecto que mais causou impacto na profissional não foram os atos de violência em si, mas a maneira como cada mulher escolheu reagir diante dos obstáculos.
“Às vezes, pessoas boas sofrem coisas que a gente pensa que não deveriam, mas que fazem parte da vida. E como elas encaram isso é a parte que eu acho mais bonita”, contou. “Se elas vão se submeter àquilo, aceitar aquele preconceito, aquela discriminação, aquele obstáculo, ou se vão tentar romper com isso, superar e tentar ser feliz.”
Casos reais e os limites da resposta judicial
Entre os episódios marcantes que compõem o repertório da autora está o atendimento a uma vítima de violência doméstica no interior de Goiás. A mulher havia acionado a Justiça contra o companheiro, mas manifestou o desejo de voltar atrás e retirar a denúncia durante uma audiência.
Ao tentar compreender os motivos daquela decisão, a procuradora foi surpreendida pelo agressor, que tentou impedir a fala da vítima.
“Eu me dirigi a ela e falei: ‘O que aconteceu com a senhora? Por que a senhora quer renunciar?’. De repente, um senhor que estava ao lado dela, que inicialmente achei até que fosse advogado, falou: ‘Ela não vai responder às perguntas’”, relembrou.
A interventoria do parceiro continuou mesmo diante da autoridade da juíza e da própria promotora de Justiça. “Era o homem que tinha agredido ela e estava ali, numa audiência, querendo ainda impor, como se fosse o dono dela”, relatou. “Eu vi que aquela mulher era uma vítima tanto na casa dela, no cotidiano dela, na vida dela, como em todos os aspectos. Queria ser dono da vontade dela.”
Para a autora, situações como essa evidenciam que o sistema judicial isolado não é suficiente para solucionar a violência doméstica, tornando indispensável uma rede pública de apoio capaz de assegurar condições para que as vítimas abandonem o ciclo de agressões.
“Eu pensei: ‘Meu Deus, quando ela chegar na casa dela, o que essa mulher vai sofrer?’. Como a sociedade pode amparar, acolher, ajudar para que essas mulheres não sofram tanto?”, questionou. “Não é só uma decisão judicial. Tem que ter o outro lado, que é o poder público, que pode dar amparo para essas mulheres saírem daquele ciclo da violência.”
Além da vitimização: foco nos recomeços
Apesar de abordar diferentes formas de violência — incluindo agressões físicas, psicológicas, morais, patrimoniais e sexuais —, o livro faz questão de afastar a ideia de que as personagens devem ser enxergadas unicamente como vítimas.
“O livro nunca pretendeu contar apenas histórias de violência, processos ou conflitos levados à Justiça. Pretende, sobretudo, contar histórias de mulheres reais, com sonhos, medos, perdas, afetos, escolhas e recomeços, principalmente recomeços”, explicou. “Não podem ser reduzidas à condição de vítimas, porque elas reagiram, elas superaram. Por trás de cada relato existe uma pessoa que desejou ser respeitada, ouvida e reconhecida em sua dignidade.”
Entre as narrativas apresentadas está a de uma mulher trans que recorreu à Justiça para conquistar o direito à cirurgia de redesignação sexual, um caso acompanhado por Villis e que integra o capítulo batizado de Identidade Mulher.
O próprio título da publicação nasceu das marcas e trocas proporcionadas pelos atendimentos jurídicos ao longo dos anos.
“Essas mulheres vieram a mim através de um problema, muitas vezes de violência, para procurar uma solução da Justiça, buscar um acolhimento, um apoio jurídico. Mas elas deixaram muito delas em mim”, explicou. “Ao mesmo tempo, acho que elas também levaram um pouquinho de mim, do meu atendimento, do meu acolhimento e da forma como tentei orientá-las.”
A expectativa da procuradora é de que a leitura sirva como um estímulo para que outras mulheres identifiquem situações abusivas e encontrem coragem para mudar de trajetória. O combate à violência contra a mulher, segundo ela, exige o enfrentamento de raízes culturais e estruturais fundamentadas no preconceito, onde a literatura atua como ferramenta de reflexão e transformação social.
“O livro tem esse objetivo de tocar no ponto, na ferida, e pedir para refletir, para que venha mudança, transformação.”