Em setembro de 1987, um equipamento abandonado em uma clínica em Goiânia foi recolhido por catadores e levado a um ferro-velho. O objeto continha cristais azulados de césio-137, gerando o maior acidente radiológico da história brasileira e expondo centenas de pessoas à radiação.
O impacto devastador na família Ferreira
Odesson Alves Ferreira, irmão do dono do ferro-velho, recorda que o material exerceu um fascínio perigoso na época. Naquele período, dezenas de familiares e vizinhos manusearam os fragmentos luminosos sem saber do perigo mortal. O alerta definitivo veio por mensagem com o aviso: “Procure ajuda. O material que você tocou na casa é radioativo”. Ao saber do teor radioativo, Odesson associou o caso ao desastre de Chernobyl. “Quando ouvimos as palavras ‘material radioativo’, pensei: ‘Pronto, estamos todos com sérios problemas, todos nós estamos a ponto de morrer’”, recordou.
As primeiras vítimas fatais
A tragédia fez vítimas rapidamente, incluindo a pequena Leide das Neves Ferreira, de apenas seis anos, sobrinha de Odesson. Ela teve contato com os fragmentos e acabou ingerindo alimentos com as mãos contaminadas. “Sua mãe havia acabado de preparar o jantar”, contou Odesson. “Leide pegou um ovo com sua mãozinha, obviamente ainda contaminada pela radiação, e o comeu.” A menina faleceu cerca de um mês depois, no mesmo dia que Maria Gabriela, esposa de Devair. Outros funcionários do ferro-velho e familiares também perderam a vida em decorrência da contaminação ao longo dos anos.
Estigma social e quarentena
Após passar por exames e procedimentos rigorosos de descontaminação no Estádio Olímpico, Odesson enfrentou o isolamento hospitalar e a rejeição pública. A discriminação atingiu até mesmo sua esposa, evitada por passageiros em transportes públicos. O preconceito se estendeu ao cotidiano, como demonstrou um episódio em um estabelecimento comercial: “Aquilo me aborreceu muito”, recordou sobre o dia em que o dono jogou um copo fora usando um guardanapo. “Eu me contaminei e acabei virando uma fonte radioativa. As pessoas que passaram por mim foram irradiadas por mim, inclusive a minha família”, disse. “Vizinhos quiseram apedrejar a nossa casa. Quando nos mudamos para a casa onde vivemos até hoje, correu um abaixo-assinado na vizinhança para tentar impedir”, contou.
A luta pelos direitos das vítimas
Diante das sequelas sociais e de saúde, o governo implementou campanhas de solidariedade e endureceu normas de controle de materiais radioativos. Abandonando a profissão de motorista, Odesson assumiu a presidência da Associação das Vítimas do Césio-137 para defender os direitos dos afetados. “Devemos lutar pelas pessoas e garantir que isso nunca mais volte a ocorrer em nenhum lugar do mundo. Ninguém, em nenhum lugar, deverá precisar passar pelo que nós vivenciamos”, afirmou.
Aos 70 anos e morando em uma fazenda no interior, Odesson dedica seu tempo a registrar suas memórias e relata ter alcançado a paz após tantos anos de superação. “Sou uma pessoa saudável que está em paz consigo mesma, apesar de tudo por que passei, graças a Deus”, afirmou.