A presença feminina na Polícia Científica de Goiás tem ganhado força não apenas pelo aumento no número de profissionais, mas pela diversidade de papéis exercidos em locais de crime, laboratórios, salas de necropsia e cargos de chefia. Quatro trajetórias distintas ilustram como a ciência e a dedicação se tornaram ferramentas de transformação em um ambiente tradicionalmente masculino.
Da odontologia à antropologia forense
Daline Oliveira Carneiro esperou dez anos para assumir o cargo dos sonhos. Formada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), ela deixou família e consultório para integrar a primeira turma de peritos odontolegistas de Goiás, concurso realizado em 2025. “Tenho o maior prazer, a maior honra de estar entre os primeiros profissionais de Odontologia Legal aqui dentro do Estado de Goiás”, relata sobre a conquista. Aos 40 anos, ela precisou recomeçar sozinha, mas comemora a realização profissional. “Quando chegou o momento exato de ter que largar tudo lá, porque eu tinha um consultório. Eu vim sozinha, minha família ficou toda lá. Aí eu vi que a coisa era mais difícil”, recorda. Para ela, a forte presença feminina na área comprova que “a gente prova que competência e autoridade não têm relação com gênero”.
Respeito e técnica em crimes contra a vida
Percilia de Andrade Lucena atua há nove anos na Divisão de Perícias de Crimes contra a Vida, enfrentando plantões exaustivos e o impacto emocional de lidar com a morte. O interesse pela carreira surgiu na graduação em Farmácia, motivado pelo desejo de fazer justiça. Para aliviar a tensão da rotina, ela encontrou no CrossFit um importante suporte há 15 anos. No entanto, o desafio diário vai além do rigor técnico, exigindo firmeza diante de ambientes hostis. Defensora da meritocracia, ela resume sua visão: “Lugar existe para todo mundo. O que a gente precisa é de profissionais habilitados e capacitados para fazer o melhor serviço. Não pelo sexo, mas pela expertise, pela capacidade intelectual”.
Humanização nas salas de necropsia
Isadora Silva Lima encontrou na função de auxiliar de autópsia uma forma inesperada de acolhimento e respeito por aqueles que já não podem falar. Participando de exames médico-legais e atendimentos a pessoas vulneráveis, ela destaca o compromisso da equipe. “A gente tenta fazer um trabalho humanizado no pior momento da vida das pessoas”, pontua. A dedicação se estende principalmente aos casos mais extremos: “É quando ninguém mais se importa com você, porque só restou o seu corpo, a gente se importa”, afirma. Para ela, a igualdade atual é fruto da barreira quebrada por peritas pioneiras.
A ascensão feminina na gestão estadual
Núbia Miranda iniciou a carreira no interior do estado após se formar em Farmácia, atuando em perícias de armas, drogas e locais de crime. Ao substituir gestores em períodos de férias ou licença, descobriu aptidão para a administração e, em 2022, assumiu a chefia-geral das regionais em Goiânia. Ela ressalta a importância de unir precisão técnica e sensibilidade no atendimento à população. “A segurança pública é um setor historicamente predominado por homens. Mas nós, mulheres, estamos conquistando cada vez mais nosso espaço através do trabalho, da competência e da sensibilidade”, conclui.
As histórias de Daline, Percilia, Isadora e Núbia demonstram que a atuação das mulheres na segurança pública goiana vai muito além dos distintivos. Seja desvendando vestígios, realizando autópsias ou comandando unidades regionais, elas consolidam um legado de excelência e abrem caminhos para as futuras gerações na perícia oficial.