Edmund Wilson e Charles Dickens: ensaio revela a alma do autor

A releitura de obras clássicas proporciona a maturidade necessária para enxergar nuances que passavam despercebidas na juventude. Assim como grandes leitores retornam periodicamente aos seus livros favoritos, voltar aos textos fundamentais da crítica literária permite redescobrir camadas profundas de grandes autores da história.

O resgate de Charles Dickens pela crítica

No famoso ensaio “Dickens: os dois Scrooges”, escrito em 1939, o crítico literário Edmund Wilson exerceu um papel fundamental ao reposicionar a relevância de Charles Dickens no cenário acadêmico. Conforme aponta o prefácio da edição brasileira, a academia da época frequentemente tratava o romancista britânico de forma desprestigiada.

No prefácio do volume, Paulo Francis ressalta que “Nossos professores achavam Dickens vulgar, populacheiro e distintamente de segundo time”, acrescentando que “não havia traço de Dickens na lista de [Frank Raymond] Leavis [1895-1978], mestre de uma geração de críticos ingleses. O mesmo ocorreu com Henry James: ignorado pela academia americana nos anos 30, foi resgatado por Wilson e seu colega, também crítico, Philip Rahv; hoje, os acadêmicos se dizem donos de James e tratam os comentários de Wilson como mero impressionismo”.

Traumas de infância e a psicologia dos personagens

O método analítico de Wilson destaca-se por examinar as correlações diretas entre as vivências do escritor e a construção de sua galeria de figuras memoráveis. Um marco decisivo na biografia de Dickens ocorreu em 1824, quando seu pai foi enviado para a prisão de devedores de Marshalsea, obrigando o futuro autor a trabalhar na colagem de rótulos em uma fábrica de graxa.

A respeito do dualismo presente nas narrativas do autor inglês, o ensaísta aponta que “Devemos considerar a questão central da psicologia das personagens de Dickens. O mundo da sua primeira fase se organizava em função de um dualismo que se baseava – em sua derivação artística – nos valores do melodrama: há gente má e gente boa, há personagens cômicas e personagens sérias. A única complexidade de que Dickens é capaz consiste em fazer que alguma das suas personagens mórbidas se torne sadia, um de seus palhaços se converta em pessoa séria. O exemplo mais flagrante deste processo é a reforma do sr. Dombey, que, como diz Taine: “torna-se o melhor dos pais e com isso estraga um belo romance”. Mas a reforma de Scrooge em “Um conto de Natal” mostra o fenômeno em sua forma mais pura”.

A anatomia da sociedade vitoriana

A abordagem do crítico evita reducionismos psicológicos ou sistemas teóricos rígidos, preferindo examinar como a dor e o abandono se transformaram em matéria-prima literária. Ao abordar a construção dos romances sociais, o texto aponta que o autor, “trabalhando sempre com correlações observadas entre seres humanos altamente individualizados mais do que com a análise política ou econômica, se dispõe a traçar uma anatomia dessa sociedade vitoriana”.

O legado de Charles Dickens permanece atemporal justamente pela capacidade de traduzir as complexidades e as contradições humanas para a ficção. Como bem pontua Edmund Wilson ao final de sua análise sobre a amplitude da dramaturgia e do romance modernos, “nenhum ultrapassou Dickens”.

Deixe um comentário