Um vazamento de petróleo na costa dos Emirados Árabes Unidos provocou o fechamento temporário de praias e restrições à pesca, acendendo o alerta sobre a segurança ambiental e o funcionamento de usinas de dessalinização. O incidente decorre de danos sofridos por uma embarcação identificada pelo setor de navegação como o navio-petroleiro “Gem No. 2”, que teria sido atingida por um projétil desconhecido no mês passado, a 24 quilômetros a oeste de Al Jazeera, no emirado de Ras Al Khaimah.
Riscos para o fornecimento de água potável
Como a água dessalinizada representa mais de 80% do abastecimento potável nos Emirados Árabes Unidos — com unidades estratégicas como as de Jebel Ali, em Dubai, e Taweelah, entre Abu Dhabi e Dubai —, o avanço da mancha de óleo gera apreensão. Dados de inteligência marítima apontam que o vazamento ameaça a captação da estação de Naqa’a, na divisa entre Umm Al Quwain e Ras Al Khaimah, tendo imagens confirmado a proximidade do óleo a cerca de 2 km do local.
Impactos na fauna e decomposição do óleo
O professor sênior Simon Boxall, da Universidade de Southampton, destacou que a gravidade de qualquer desastre ecológico depende do volume e do tipo de óleo derramado. “O petróleo bruto, em particular, é um produto natural. Por isso, ele acaba se decompondo no ambiente marinho — especialmente em águas quentes, como as do Golfo — em questão de poucas semanas”, disse. Contudo, o especialista acrescentou: “Um vazamento mais espesso contém, naturalmente, uma quantidade maior de petróleo. Quando ele atinge as praias ou o ambiente marinho — seja no mar, no leito oceânico ou na costa —, tem o potencial de causar danos mais graves. Ele acabará se decompondo, mas isso leva tempo.” Para a vida selvagem, a contaminação pode ser letal, destruindo a capacidade de voo das aves e prejudicando mamíferos marinhos e peixes, conforme dados da NOAA.
Vulnerabilidade das estações de tratamento
Segundo Nidal Hilal, diretor do Centro de Pesquisa em Água da Universidade de Nova York em Abu Dhabi, a principal preocupação é a captação de água bruta usada no processo de purificação. “Para os Emirados Árabes Unidos, onde a dessalinização é um pilar fundamental da segurança hídrica — garantindo o abastecimento de água potável —, uma preocupação central é se o petróleo pode atingir os pontos de captação e comprometer o processo de tratamento”, afirmou ele à Reuters, ressaltando a necessidade de diferenciar ameaças à qualidade da água de danos físicos permanentes.
Para mitigar os riscos, as usinas precisam ser desativadas preventivamente quando o óleo se aproxima. Embora o cenário atual esteja longe da magnitude de desastres históricos como o da Guerra do Golfo em 1991 — que paralisou várias unidades na Arábia Saudita e no Kuwait e cujos impactos ainda deixam sequelas, conforme lembrou Boxall —, o episódio reforça os desafios de proteger a infraestrutura hídrica diante das crescentes tensões geopolíticas e hostilidades na região.