Giovana Madalosso debate criação literária e desafios femininos em Goiânia

A escritora, jornalista e roteirista Giovana Madalosso esteve em Goiânia no último sábado, 31, para detalhar os bastidores de sua produção literária e os principais obstáculos da carreira. O evento ocorreu na sede da União Brasileira de Escritores de Goiás e integrou as atividades da Escola de Escritoras, iniciativa que oferece capacitação gratuita para o público feminino no estado.

Pesquisa sensorial e verossimilhança

Durante o bate-papo, a autora destacou que o processo de criação de obras como Suíte Tóquio exigiu viagens de campo ao interior do Paraná e à região amazônica. Para estruturar duas protagonistas com realidades distintas — uma patroa e uma babá —, a romancista visitou uma fazenda de bicho-da-seda em Mandaguari e uma comunidade no alto do Rio Gregório, no Acre.

A escolha estratégica de adotar a primeira pessoa para ambas garantiu simetria à narrativa, enquanto particularidades regionais e escolhas vocabulares moldaram a voz de cada personagem. Segundo a romancista, o rigor na coleta de referências serve para sustentar a coerência interna da ficção.

“Na literatura, eu acho que a nossa pesquisa vem muito disso, dos sons, dos cheiros, das impressões que a gente tem. E isso é o que dá para o leitor aquela sensação de: nossa, essa história é verdade”, afirmou.

Camadas de interpretação e títulos

A escolha dos nomes das obras também entrou em pauta. Inicialmente batizado de Maternidade, o romance Suíte Tóquio teve o título alterado por sugestão editorial para evitar a limitação de temas como desigualdade social e exploração do trabalho doméstico. Já no livro Tudo Pode Ser Roubado, a premissa do furto físico dialoga com perdas imateriais.

“A gente pode ser roubado de muita coisa, a gente pode ser dilapidado de momentos, de relações que a gente tem, de certezas, da nossa liberdade”, explicou.

Obstáculos na carreira e falta de referências

Criada em uma família conservadora de origem italiana que priorizava a estabilidade financeira, Giovana Madalosso relatou que sonhava em escrever desde a infância, mas enfrentou forte resistência familiar. A insegurança inicial também foi atribuída à escassez histórica de figuras femininas de destaque no meio literário.

Para os novos autores, a romancista recomendou cautela na escolha de quem avalia os primeiros rascunhos, enfatizando a importância de críticas construtivas e alinhadas ao estilo original.

“Não procurem leitores que eles fariam deste jeito. O bom leitor é aquele leitor que entende o seu estilo e que, a partir do entendimento da sua proposta literária, ele vai fazer uma análise”, aconselhou.

O encontro em solo goiano consolidou reflexões sobre a autoconfiança feminina, a superação de manuscritos engavetados e a consolidação da escrita como um ofício fundamentado na observação empírica e na dedicação prolongada.

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