A primeira fase do vestibular da Fuvest ocorreu neste domingo (1º), reunindo candidatos em 30 municípios paulistas — incluindo a Região Metropolitana de São Paulo, o interior e o litoral do estado —, além de Fortaleza, no Ceará. O exame foi aplicado em 88 escolas, com portões abertos ao meio-dia e fechados às 13h. Segundo o secretário-geral da Universidade de São Paulo (USP), Gustavo Ferraz de Campos Monaco, a edição marcou a menor taxa de abstenção da história do processo seletivo.
Temas contemporâneos e cultura pop na avaliação
Neste ano, a prova apostou em forte conexão com o cotidiano dos jovens e incluiu diversos elementos da cultura pop. Em Biologia, uma das questões abordou a síndrome genética rara enfrentada pelo ator Gaten Matarazzo, conhecido por seu papel na série Stranger Things. Outro destaque foi a utilização de uma imagem do cantor Bad Bunny com uma bandeira não oficial de Porto Rico durante o Super Bowl, servindo para debater questões geopolíticas e a relação entre a ilha e os Estados Unidos.
O caderno de questões também incorporou a música Meninos e Meninas, da banda Legião Urbana, e uma imagem criada por inteligência artificial retratando a cantora Maria Rita ao lado de sua mãe, Elis Regina. Os exames ainda trouxeram reflexões sobre o impacto das mudanças climáticas na flora, análises financeiras comparativas entre veículos elétricos e movidos a gasolina, e o papel dos influenciadores fitness na construção de padrões estéticos corporais.
Análise de professores sobre o exame
Especialistas da área educacional avaliaram a estrutura do teste e destacaram a forte interdisciplinaridade e a atualização dos temas propostos aos vestibulandos.
“A prova trouxe diversos temas cotidianos e teve muita referência de cultura. Uma questão falando sobre a série Stranger Things, falando sobre a síndrome do ator, questão sobre o uso de inteligência artificial para a produção de imagens. Uma questão falou sobre a maior rampa que já foi descida por um skatista, uma referência ao Sandro Dias. Teve ainda referência sobre as letras de Renato Russo e uma questão bem interessante falando sobre a apresentação do Bad Bunny no Super Bowl, trazendo referências à bandeira do seu país, a um território que está ali sob controle dos Estados Unidos”, afirmou Altieres Lima, professor de Geografia da Escola SEB Lafaiete.
Vera Lúcia Antunes, coordenadora Pedagógica do Objetivo, afirmou: “Uma prova criativa e muito bem elaborada e apesar de terem diminuído 10 questões, ainda foi uma prova extensa, que exigiu do candidato domínio de vocabulário e de conceitos. Como já esperado, uma prova muito interdisciplinar, bem atualizada, com questões sociais contemporâneas. A prova caracterizou-se pela compreensão de diferentes tipos de fontes textuais, imagens, músicas, textos literários, gráficos etc.”.
Discussão sobre a escala 6×1 e Karl Marx
Um dos pontos de maior repercussão entre os candidatos e docentes foi a cobrança de um tema de grande relevância social recente: o debate em torno do fim da jornada de trabalho 6×1 e a resistência do setor patronal frente a essa pauta.
“A prova teve uma questão sobre a escala 6X1 cobrava o conceito de ‘mais valia absoluta’ (ampliação da exploração a partir do aumento da jornada de trabalho) do sociólogo alemão Karl Marx e pedia para o aluno encontrar a alternativa que estava alinhada a resistência da classe patronal a redução da escala”, avaliou Breno Carlos da Silva, professor de Filosofia da Escola SEB Lafaiete.
“No caso da jornada 6×1, o enunciado também relaciona a manutenção desse modelo de trabalho e a resistência do setor patronal à discussão sobre sua redução, considerando as categorias marxistas e a lógica econômica. É interessante observar como a FUVEST utiliza questões contemporâneas para exigir dos estudantes não apenas o reconhecimento de conceitos teóricos, mas também a capacidade de aplicá-los à interpretação de situações presentes na sociedade”, afirma Caio Ferreira, especialista em soluções educacionais do COC.
Conexão entre ciência e entretenimento
O uso de referências de entretenimento para avaliar conteúdos acadêmicos complexos foi elogiado por sua capacidade de gerar engajamento e aproximar a teoria da realidade dos estudantes.
“Essa questão também merece atenção por utilizar uma referência bastante próxima do universo juvenil para abordar um conhecimento científico. […] Considero interessante essa escolha por aproximar um conteúdo científico de uma referência da cultura pop, criando conexões entre genética, hereditariedade e desenvolvimento humano. É um exemplo de como o repertório cultural dos estudantes pode ser mobilizado para contextualizar conhecimentos acadêmicos, tornando a aprendizagem mais próxima, significativa e conectada à realidade”, afirmou Caio Ferreira.
Com o encerramento da primeira etapa, os estudantes aguardam os próximos passos do calendário do processo seletivo, que inclui a divulgação de gabaritos e a preparação para a fase discursiva.