Com a vitória de Lula da Silva (PT) no segundo turno, o mercado financeiro e investidores já monitoram os impactos do quarto mandato presidencial sobre a economia brasileira e o ambiente corporativo. No estado de Goiás, o cenário projetado é de continuidade dos aportes financeiros, impulsionados principalmente pela força do agronegócio, da indústria e da mineração.
Crescimento moderado e o peso das contas públicas
Apesar da resiliência regional, analistas alertam que o ritmo da economia goiana estará atrelado aos rumos nacionais. Questões como a trajetória dos juros, a política fiscal, as condições de crédito e a capacidade de atrair novos negócios serão determinantes. A economista Greice Guerra aponta projeções de um avanço tímido para o Brasil e destaca riscos associados ao desequilíbrio das contas do governo. Segundo dados do Boletim Focus citados por ela, a estimativa de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) para 2027 caiu de 1,8% para 1,31%, refletindo o temor de estagnação caso o Planalto falhe em conter os gastos públicos.
“O país tem uma tendência de crescer menos. Pelo menos no próximo ano, acredito que o PIB não se expanda muito”, afirma a economista. Ela ressalta que eventuais altas no indicador virão impulsionadas por políticas de transferência de renda, o que não garante solidez a longo prazo. “Se crescer, é muito pouco. E, se crescer, também é mais em função das políticas sociais, de jogar dinheiro na economia”, complementa. Para a especialista, a combinação de taxas elevadas e despesas descontroladas limita a atividade produtiva e dificulta o trabalho do Banco Central. “É muito difícil ter crescimento econômico com uma Selic alta de 11,75% e com esse gasto do governo”, resume, reforçando que “sem ajuste fiscal, é muito difícil a economia crescer”.
Oportunidades e gargalos para o mercado em Goiás
Em contrapartida, o investidor e comentarista Raul Sena adota uma postura otimista em relação ao território goiano, embora reconheça que o controle da dívida pública será o principal obstáculo da nova gestão federal. O encarecimento do crédito gerado por juros altos afeta diretamente setores sensíveis, como o varejo, a construção civil e companhias altamente endividadas. A indústria também sofre com a carga tributária e problemas logísticos. “Fica ainda pior com juros de 14%, imposto em cascata, dólar mais caro pra importar maquinário e um governo que prefere taxar do que desonerar”, pontua o investidor.
Ainda assim, Sena enxerga diferenciais competitivos sólidos em solo goiano, destacando que a região possui menor dependência de Brasília do que potências como São Paulo ou Minas Gerais. “Goiás tem uma vantagem porque depende menos de Brasília do que São Paulo ou Minas. A economia daqui é agroindústria, mineração e indústria de transformação”, avalia. Ele também relativiza a recente volatilidade do mercado pós-eleição: “Boa parte dessa pancada não é avaliação fria da economia, mas, sim, o mercado que apostou errado”, argumenta, apontando que o resultado divergiu das apostas de parte dos agentes financeiros em um cenário político alternativo.
Insegurança tributária e diversificação econômica
Outro ponto de atenção para o empresariado é a transição para o novo modelo de impostos. Greice Guerra aponta que a falta de clareza sobre as regras da Reforma Tributária tem gerado cautela. “Existe um temor de elevação dos tributos. A Reforma Tributária, que vinha para simplificar, parece estar gerando mais complexidade e preocupação para o mercado”, adverte. A previsibilidade normativa é vista como vital para manter a atratividade de incentivos fiscais estaduais.
Apesar dos desafios regulatórios e fiscais — que incluem a necessidade de melhorias logísticas, escoamento e qualificação profissional —, o estado segue amparado por bases sólidas, como o avanço das exportações de commodities e o potencial de expansão em tecnologia. Para Raul Sena, a manutenção da disciplina fiscal local combinada com cenários externos favoráveis poderá garantir resultados expressivos: “Se o mundo ajudar, se a commodity continuar boa e a China seguir comprando, o Brasil cresce 2,5%, 3% e o Lula ainda tira uma foto boa com os números”, conclui.
Portanto, o sucesso econômico de Goiás durante o governo Lula 4 dependerá da habilidade do estado em blindar suas cadeias produtivas mais fortes — como o agronegócio e a mineração — contra os reflexos negativos de uma política fiscal federal expansionista e do crédito restritivo.