O mercado de carne bovina produzido em Goiás tem potencial para faturar cerca de US$ 51 milhões adicionais por ano com o avanço do tratado comercial entre o Mercosul e a União Europeia. A estimativa foi divulgada pela Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) e considera a plena vigência das novas regras alfandegárias, embora o setor enfrente barreiras comerciais rigorosas no momento.
Impactos tarifários e divisão das cotas
O pacto estabelece um volume total de 99 mil toneladas de carne bovina para o bloco sul-americano, sendo 42 mil toneladas reservadas exclusivamente para o Brasil, com uma taxa preferencial de 7,5%. Historicamente, as taxas aplicadas sobre esses gêneros alimentícios variavam entre 42% e 46%. No planejamento da entidade industrial, a maior parte do incremento financeiro virá da categoria desossada e congelada, somando US$ 38,7 milhões anuais, enquanto os cortes frescos ou refrigerados responderão por US$ 12,3 milhões.
“Vai gerar um aumento de exportação, justamente porque, dentro da cota, o produtor vai pagar menos imposto de importação. Então, o produto vai chegar mais barato lá na Europa”, afirma Saulo Nogueira, analista da Fieg. O especialista aponta que o benefício financeiro total será diluído em etapas ao longo de uma década, e avalia que os frigoríficos locais manterão competitividade mesmo quando precisarem comercializar volumes excedentes fora do limite tarifário preferencial.
Embargo europeu e prejuízos mensais
Apesar das perspectivas positivas de longo prazo, as vendas para o continente europeu estão paralisadas desde setembro devido à exclusão do Brasil da lista de nações autorizadas a fornecer itens de origem animal, motivada por exigências ligadas aos antimicrobianos. Enquanto Argentina, Paraguai e Uruguai mantêm as vendas ativas, a pecuária goiana acumula perdas financeiras expressivas.
A Fieg calcula que Goiás deixa de exportar US$ 16,8 milhões por mês em carne bovina enquanto a suspensão vigorar. O analista da federação aponta falhas na execução de ferramentas de fiscalização por parte do poder público: “O governo não implementou um sistema de monitoramento, de controle desse uso de antimicrobiano”, afirma.
Desafios na rastreabilidade do rebanho
A retomada dos envios exige uma reestruturação complexa na pecuária nacional, visto que os compradores europeus demandam o monitoramento completo durante toda a vida do animal. Por causa desse rigor técnico, um bovino recém-adequado às normas pode demorar até três anos para estar apto ao abate e à exportação.
“Somente após a implementação desse novo sistema de controle […] é que ele vai poder ser enviado, exportado dentro dessa exigência europeia”, diz Nogueira. O setor produtivo e o Ministério da Agricultura seguem em tratativas diplomáticas, mas “Por enquanto, os europeus não mudaram a sua postura”, conclui o analista sobre a ausência de um acordo definitivo para a reabertura do mercado.