À primeira vista, o cenário político americano parecia simples. O presidente Donald Trump e os republicanos conquistaram o poder em novembro de 2024 com a promessa de consertar a economia, mas os dados de 2026 mostram eleitores ainda mais frustrados. “É a economia, estúpido.” No entanto, a realidade financeira dos Estados Unidos apresenta contradições profundas que vão muito além da famosa frase de James Carville.
Força econômica e inflação
Os Estados Unidos registram indicadores sólidos, com desemprego baixo e consumo resiliente, impulsionados inclusive pela revolução da inteligência artificial. Ainda assim, a inflação retornou e os eleitores passaram a culpar diretamente as diretrizes da gestão atual, incluindo tarifas, desregulação tecnológica, controle imigratório e o conflito no Oriente Médio. “Se não fosse pela guerra no Irã, esta seria uma eleição de meio de mandato muito diferente”, afirmou Heather Long, economista-chefe da Navy Federal Credit Union.
O impacto do custo de vida e dos combustíveis
O preço da gasolina e do diesel atingiu patamares inéditos após o início do conflito, gerando um custo extra de US$ 1.150 para a família média americana, segundo levantamento da Universidade Brown. Esse encarecimento diário provocou alta nos rendimentos de títulos e nas taxas imobiliárias, revertendo a tendência de salários acima da inflação e reduzindo o poder de compra da população.
Queda na aprovação de Trump
Diferente do primeiro mandato, quando os ganhos salariais superaram a inflação e garantiram alta popularidade econômica, o atual governo enfrenta índices negativos expressivos. A aprovação líquida de Trump na economia caiu para -46 pontos em pesquisas recentes. “Digamos, para argumentar, que Biden tenha cometido erros graves: isso de forma alguma isenta Trump de responsabilidade”, afirmou Steven Durlauf, economista da Universidade de Chicago que pesquisa desigualdade de riqueza e mobilidade social. “Trump administrou muito mal a inflação. Os eleitores precisam responsabilizar as políticas do governo.”
Desigualdade e o sonho americano
Além da inflação, o modelo econômico atual aprofundou a desigualdade por meio de uma recuperação em formato de K, que protege os mais ricos enquanto penaliza trabalhadores de baixa renda. A escassez de moradias acessíveis e creches, somada a um mercado de trabalho menos dinâmico, intensificou a sensação de estagnação social. “O ideal da classe média está se tornando cada vez mais inalcançável”, concluiu Durlauf.
A combinação de preços altos, instabilidade internacional e falta de alternativas para ascensão social criou um ambiente de insatisfação generalizada. Esse cenário econômico adverso foi determinante para a virada eleitoral dos democratas nas disputas legislativas de meio de mandato.