A falta de orientações concretas sobre o equilíbrio das contas públicas para o próximo mandato foi o principal motivo que levou o Comitê de Política Monetária a manter a taxa básica de juros em 13,75%. A avaliação foi feita por Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, ao discutir o cenário econômico nacional.
Incerteza nas contas públicas e avanço dos gastos
De acordo com a especialista, a cautela do Banco Central decorre do desconhecimento sobre o rumo que o orçamento federal tomará no próximo ano.
“O principal fator para a decisão hoje do Copom foi, de fato, essa incerteza maior”, afirmou. “E essa incerteza vem desse desconhecimento que a gente tem hoje de como vão estar as contas públicas no próximo ano”, avaliou a economista-chefe do Inter.
A analista lembrou que o período eleitoral foi marcado por promessas de ampliação de despesas, estimando que o crescimento dos gastos públicos deve encerrar o ano superando a inflação, com alta superior a 6%.
“A média desse período de quatro anos foi próximo a esse montante, 6% de crescimento real dos gastos ao ano”, disse.
Esse patamar elevado tem gerado pressão sobre os índices de preços e deteriorado a confiança do mercado. Segundo o alerta emitido, caso a expansão das despesas continue nesse ritmo, a inflação poderá registrar uma aceleração expressiva, tornando o trabalho da autoridade monetária ainda mais desafiador. Por esse motivo, a instituição financeira optou por interromper o ciclo de alterações.
“Na dúvida, o Banco Central pausou e vai aguardar as diretrizes da política fiscal para 2027”, explicou.
Riscos de choques inflacionários e cenário de atividade
O horizonte econômico também contempla diversos choques inflacionários previstos para o início do período, a começar pela implementação do Imposto sobre Valor Agregado com alíquotas elevadas. Outros fatores incluem os reflexos da escala 6×1 nos custos de serviços, eventuais revisões nos subsídios da gasolina e os desdobramentos remanescentes do fenômeno El Niño.
Caso esses fatores ocorram em um ambiente de forte estímulo aos gastos, a inflação poderá se manter em patamares elevados por mais tempo. Contudo, ao avaliar a hipótese de estagflação — caracterizada pela combinação de Produto Interno Bruto fraco e alta inflação —, a economista adotou tom de cautela.
“Ainda não. O que a gente tem hoje é um cenário de atividade que perde força”, disse, pontuando que um quadro mais grave só se concretizaria caso o governo decidisse elevar ainda mais as despesas, impulsionando a cotação cambial para patamares superiores a R$ 6 e estimulando um processo inflacionário persistente.
Expectativas e o papel do Ministério da Fazenda
Indagada sobre a eventual nomeação de um novo titular para a pasta econômica, a especialista destacou que a transmissão de mensagens claras supera a relevância da escolha nominal.
“Não só a decisão de um novo nome com credibilidade, mas também de uma direção do que esperar para o fiscal para o próximo ano”, afirmou.
A economista também ponderou que, embora as ações de cunho social sejam essenciais em um cenário de desigualdade, os programas precisam respeitar os limites orçamentários para evitar ruídos no mercado financeiro.
“É importante fazer caber essas políticas sociais dentro dessa restrição orçamentária”, concluiu, reforçando que uma condução fiscal transparente trará maior previsibilidade para a trajetória da taxa Selic ao longo de 2027.