Anos após a trajetória de seu pai estampar manchetes globais, Mike Biggs decidiu assumir o controle da narrativa familiar. Conhecido nacionalmente por ter integrado a Turma do Balão Mágico, ele é filho de Ronald Biggs, um dos nomes centrais do histórico assalto ao trem pagador inglês em 1963. A história é revisitada na produção “Biggs by Biggs”, título original do Universal+ que estreia no streaming na sexta-feira (6).
Desconstrução de mitos sobre o assalto
Em entrevista à CNN Brasil, Mike explicou que um dos principais objetivos do projeto é desconstruir histórias que, segundo ele, foram difundidas ao longo dos anos e contribuíram para criar uma imagem “distorcida” de seu pai. O projeto busca esclarecer os mitos que cercam a vida do criminoso após o crime.
“As pessoas acharam que meu pai era o cérebro por trás do assalto, que meu pai era parte da máfia internacional, que meu pai era esse grande bandido perigoso e que ele chegou ao Brasil milionário com dinheiro do assalto. Então foi bom desmistificar essas coisas”, afirmou.
Gravações e laços familiares profundos
O documentário acompanha Mike por diferentes fases de sua vida, com gravações realizadas em Londres, no Rio de Janeiro e em São José de Ribamar, no Maranhão. A produção também explorando, especialmente, a relação entre pai e filho.
“A gente sempre foi muito, muito próximo um do outro. Então, talvez pudesse, nesse documentário, colocar como foi, o que levou a gente a ter uma relação tão intensa enquanto pai e filho”, seguiu Mike.
Apesar da satisfação em revisitar a trajetória familiar, Mike admitiu que as gravações também despertaram sentimentos dolorosos. “Uma coisa negativa que me marcou foi quando eu estive do lado de fora do presídio. Eu senti muita raiva, muito ódio. Eu sou uma pessoa que não tem ódio, saca? Mas ali eu vi que eu ainda era capaz de odiar um lugar”, revelou.
“Eu falei uma coisa no documentário, uma frase que me marcou muito, que eu odeio cada tijolo das paredes daquele presídio. Realmente eu sinto isso. Mais me marcou um pouco o quanto as emoções negativas, de raiva, de ressentimento, ficaram afloradas do lado de fora daquele presídio”, acrescentou.
Por outro lado, o artista destacou que reencontrar pessoas que fizeram parte da trajetória de Ronald também foi uma experiência emocionante. “Eu acho que foi muito bom ver o amor que continua entre os amigos, entre os familiares. Meu pai conseguiu montar um time de pessoas especiais em volta da vida dele”, afirmou.
A história do roubo do século
Ronald Biggs ficou mundialmente conhecido por sua participação no chamado “roubo do século”, realizado em 8 de agosto de 1963, no Reino Unido. Na ocasião, um grupo de criminosos, liderado por Bruce Reynolds, interceptou um trem postal que seguia de Glasgow para Londres. Os assaltantes manipularam a sinalização ferroviária para interromper a viagem e conseguiram levar aproximadamente 2,6 milhões de libras esterlinas.
Biggs foi condenado a 30 anos de prisão, mas fugiu da penitenciária de Wandsworth em 1965, após cumprir apenas 15 meses. Após passar por vários países, fixou residência no Brasil em 1970, tornando-se figura célebre da cultura popular e constituindo família. Foi no país que nasceu Mike, que viria a brilhar nos anos 1980 no grupo musical infantil que vendeu cerca de 12 milhões de discos.