Estudo revela uso de cocaína e álcool por crianças em ritual inca há 500 anos

Uma rigorosa análise toxicológica realizada em cabelos e unhas de oito múmias incas, perfeitamente preservadas nas cordilheiras do Peru e da Argentina, revelou o consumo de substâncias psicoativas há aproximadamente 500 anos. Os exames detectaram a presença de cocaína e de seu principal metabólito, a benzoilecgonina, em absolutamente todas as amostras capilares examinadas pelos cientistas.

O contexto do ritual capacocha

O estudo, divulgado recentemente na conceituada revista científica Antiquity, examinou os restos mortais de crianças e jovens que foram vítimas do tradicional ritual de sacrifício conhecido como capacocha. Essa importante cerimônia religiosa do Império Inca — civilização que floresceu entre o final do século 13 e o ano de 1572 — envolvia a oferta de jovens às principais divindades nos cumes das montanhas mais altas.

Além da forte motivação religiosa, o ritual possuía uma dimensão política estratégica. A prática permitia que os governantes incas consolidassem hierarquias entre os deuses de diferentes províncias e intensificassem o rigoroso controle político sobre as populações locais subjugadas.

Consumo de folhas de coca e bebidas alcoólicas

A constatação de compostos da cocaína comprova o uso recorrente de folhas de coca pelos indivíduos antes do sacrifício. Na antiga sociedade andina, a planta desempenhava papéis vitais: era empregada em cerimônias sagradas, servia como oferenda divina e era amplamente valorizada por suas poderosas propriedades medicinais contra problemas digestivos e o mal da altitude.

O metabólito cocaetileno

Um dos dados mais surpreendentes da pesquisa foi a identificação de cocaetileno nas amostras capilares de duas múmias específicas, encontradas em Chuscha e Llullaillaco. Essa substância química é gerada pelo organismo humano apenas quando ocorre a ingestão combinada e simultânea de cocaína e álcool.

Ademais, o mapeamento de diferentes segmentos do cabelo da múmia de Chuscha permitiu monitorar a exposição aos psicoativos nos meses anteriores ao óbito. Os dados indicam que a concentração de cocaína oscilou durante o último semestre de vida daquela criança, registrando uma queda expressiva justamente no último mês.

Busca por outras plantas alucinógenas

Durante a investigação laboratorial, que utilizou a avançada técnica de cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas, a equipe também buscou vestígios de outros compostos vegetais, a exemplo de mescalina, dimetiltriptamina (DMT), escopolamina e harmina. No entanto, nenhum traço dessas outras substâncias foi confirmado de maneira conclusiva nas principais amostras analisadas.

Os autores da pesquisa ressaltam que as condições ambientais e a degradação natural ao longo de séculos podem interferir na preservação dos compostos químicos nos tecidos. Consequentemente, a ausência de determinados elementos não descarta totalmente o contato anterior dos jovens com tais plantas, reforçando que o uso de psicoativos estava profundamente atrelado aos mistérios dos cultos sagrados das montanhas.

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