O governo do presidente Santiago Peña enfrenta um momento de alta turbulência política no Paraguai. Um grupo composto por 35 deputados da oposição formalizou, nesta quarta-feira, 4, um pedido de impeachment contra o mandatário, vinculando sua gestão às graves irregularidades que resultaram na liquidação do banco digital Ueno.
Pressão política e crise no sistema financeiro
O pedido de destituição será analisado em uma sessão extraordinária da Câmara dos Deputados, marcada para esta quinta-feira, 5. Para que o processo de impeachment seja instaurado, a oposição precisa angariar o apoio de dois terços dos parlamentares, um cenário que ainda gera incertezas sobre o posicionamento dos congressistas governistas.
A crise ganhou corpo após o fechamento repentino do Ueno, instituição que atendia cerca de 3 milhões de clientes. A interrupção abrupta das atividades deixou milhares de pessoas sem acesso aos seus saldos, levantando questionamentos sobre a estabilidade do sistema bancário nacional. O banco, controlado pelo Grupo Vázquez, foi liquidado pelo Banco Central do Paraguai após a descoberta de insuficiências financeiras graves, incluindo a concessão de empréstimos irregulares para empresas do próprio conglomerado.
Conflito de interesses e recursos públicos
Um ponto central da acusação contra Peña é sua ligação histórica com a instituição financeira. O presidente, que é economista, manteve participação acionária no grupo controlador do banco até março de 2025. Além dos prejuízos a correntistas privados, a falência expôs o risco sobre cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo valores do Instituto de Previdência Social do Paraguai.
Durante a sessão parlamentar, a deputada oposicionista Rocío Vallejo foi enfática ao apontar a responsabilidade do presidente: “Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente… o senhor é a origem desse monstro que criou”.
Medidas judiciais e prisões
A reação das autoridades foi rápida no campo judicial. Oito dirigentes do banco, incluindo o presidente-executivo Miguel Vázquez, foram presos, e a Procuradoria formalizou acusações contra 27 pessoas envolvidas. Paralelamente, o órgão responsável pela supervisão bancária sofreu uma baixa importante com a saída de Carlos Carvallo de sua presidência.
Em resposta à crise, o presidente Santiago Peña utilizou a rede social X para defender que os culpados sejam punidos pela lei. O chefe do Executivo também fez um apelo para que a questão não seja usada como palanque eleitoral: “Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”.
Enquanto o governo tenta acelerar a devolução dos valores aos clientes por meio de novas legislações, o sistema financeiro paraguaio lida com o reflexo da crise, com a Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) reforçando que, apesar da alta demanda por transferências de recursos, a rede bancária do país segue operando com normalidade.