Uma onda de ataques hackers contra sistemas de refrigeração atingiu diversos países europeus nesta semana, elevando as temperaturas de freezers e causando a perda de estoques em supermercados. O setor de saúde também foi impactado, com o Serviço Francês de Sangue (EFS) reportando a invasão de equipamentos que armazenam bolsas de sangue, embora o problema tenha sido contido sem prejuízos maiores. A recorrência desses episódios, que já haviam causado incêndios em estabelecimentos comerciais na França no mês passado, expõe a fragilidade de equipamentos físicos integrados à internet.
Vulnerabilidades no mundo conectado
O problema central reside na digitalização de sistemas críticos que, muitas vezes, operam com softwares obsoletos e pouca proteção. No Brasil, diversos dispositivos, desde câmeras de segurança e sensores industriais até equipamentos hospitalares, são potenciais vetores de entrada para criminosos.
“Qualquer dispositivo conectado à Internet que não tenha proteções suficientes estão mais ameaçados do que nunca”, afirma Marcos Simplicio, coordenador do Laboratório de Arquitetura e Redes de Computadores da Escola Politécnica da USP, e ex-coordenador da Comissão Especial de Ciberseguranca da Sociedade Brasileira de Computação (SBC). O especialista ressalta que o uso de inteligência artificial pelos invasores acelerou a identificação de brechas em sistemas.
“Na prática não mudou muito o cenário de vulnerabilidade (as brechas que atacantes podem explorar), mas sim a ameaça (ou seja, a quantidade de esforço colocado em identificar e explorar vulnerabilidades existentes, usando IA)”, explica.
Riscos para o setor de saúde e varejo
Em ambientes hospitalares, a ameaça é crítica. Equipamentos como tomógrafos e refrigeradores de medicamentos podem ter suas funções manipuladas, colocando vidas em risco. A CEO da consultoria de tecnologia Aquarelle, Ana Paula Kubinhets, alerta que a produção de dados incorretos é um dos maiores perigos quando não há sistemas de conferência.
“Se esse maquinário estiver emitindo uma informação incorreta e não tiver um double check, a equipe de qualidade e de manutenção não fizer uma análise por amostra, a possibilidade disso acontecer é grande”, alerta.
Por que os equipamentos são alvos?
Segundo Roberto Toscani, CISO da Tripla, a facilidade de acesso remoto para manutenção é um fator decisivo. “São dispositivos atrativos para criminosos por uma série de motivos: em primeiro lugar, por ficarem acessíveis remotamente para designers, prestadores de serviço e terceirizados darem manutenção e telemetria, muitas vezes diretamente na internet”, diz.
O cenário no Brasil
Embora não haja registros de ataques de grande escala como os europeus no país, a infraestrutura é a mesma. Fernando de Falchi, da Check Point, destaca que o volume de tentativas de invasão é alto, com organizações brasileiras enfrentando milhares de ataques semanais. Toscani, contudo, pede cautela: “Afirmar que o risco é imediato, sem apresentar dados concretos, é uma postura vaga e alarmista”, afirma.
A importância da segmentação de rede
A recomendação técnica para evitar que uma invasão em um freezer comprometa todo o sistema corporativo é a separação de redes. “Se a segmentação for adequada, o efeito fica totalmente limitado: o invasor no máximo controla diretamente o próprio equipamento”, explica Toscani. Já Simplício alerta que, em sistemas ciberfísicos, o dano pode ser físico e catastrófico.
“Os impactos potenciais podem ir de ‘pequenos’ (perda de dados, violação de privacidade dentro de uma casa) a catastróficos (com destruição de fábricas inteiras e perda de vidas)”, resume.
Para as empresas, a gestão do risco é uma decisão estratégica. Como aponta Kubinhets, “A empresa assumiu o risco. O risco existe. Se você vai assumir ou não, é a decisão do momento da empresa”. Por fim, especialistas reforçam que a segurança digital deixou de ser apenas uma tarefa de TI e tornou-se um pilar fundamental da continuidade dos negócios e da proteção à vida.