O resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, conhecidas como midterms, colocou frente a frente o deputado federal Gilson Marques (NOVO-SC) e o deputado federal Fábio Felix (PSOL-DF). Em debate realizado na última quarta-feira (4), os parlamentares analisaram se o novo desenho político em Washington terá influência direta nas relações bilaterais com o Brasil, especialmente em temas sensíveis como tarifas de importação e diretrizes de segurança internacional.
A visão de Gilson Marques: foco em questões internas
Para o deputado Gilson Marques, a configuração do Legislativo americano reflete uma necessidade de resolução de problemas domésticos, e não uma guinada ideológica definitiva. Citando dados da Reuters, o parlamentar argumentou que 90% dos eleitores focaram no custo de vida, minimizando o impacto diplomático do pleito.
“O fato dos americanos terem escolhido mais democratas do que republicanos, inclusive em lugares históricos como Kansas e Texas, não significa que essas pessoas mudaram ideologicamente daquilo que elas sempre pensavam”, afirmou Gilson Marques. Segundo o deputado, o movimento nas urnas é “provisório e não duradouro”.
Marques defende ainda que o isolacionismo americano pode favorecer o Brasil: “Ele vai precisar agora resolver o problema interno dele e talvez não se meter muito lá no Irã, na América Latina, entre outras coisas”, disse. Na sua avaliação, a diplomacia depende mais da Presidência do que do Congresso, tornando o impacto das midterms limitado.
A análise de Fábio Felix: recado contra o trumpismo
Em contrapartida, Fábio Felix enxerga o resultado como uma mudança de paradigma. O deputado do PSOL destacou a relevância histórica do pleito, comparando-o a momentos decisivos da política americana.
“Não acontece uma mudança tão forte no Congresso americano desde 2006”, afirmou Fábio Felix. Para ele, o resultado é um sinal claro de rejeição a políticas anteriores, mencionando que “Trump cortou o financiamento de política social, como política de saúde para as pessoas em situação de vulnerabilidade social, assistência social, não há política de moradia”, disse.
Felix também traçou um paralelo com o cenário nacional: “o Brasil acabou sendo o prenúncio desse processo”, referindo-se à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva.
Divergências sobre o legado de Trump
O debate também abordou a conduta do ex-presidente americano. Enquanto Marques acredita que decisões impopulares podem ser necessárias para o desenvolvimento de uma nação, Felix criticou duramente a gestão anterior.
“Trump cometeu um dos maiores estelionatos eleitorais da história política recente americana. Ele falou que não faria guerras, estava fazendo guerra, falou que não ia se envolver em conflitos internacionais, se envolveu da pior forma possível”, afirmou Fábio Felix.
Por outro lado, Gilson Marques manteve sua posição sobre a necessidade de coragem política: “Às vezes é preciso fazer o que precisa ser feito, ter a pessoa grande, honesta e corajosa no governo que faça o que precisa ser feito, ainda que impopular”, disse.
O cenário permanece em aberto, com os parlamentares brasileiros mantendo visões distintas sobre o nível de influência que a nova composição do Capitólio exercerá sobre os interesses estratégicos do Brasil nos próximos anos.