Clima extremo já impactou 7 milhões no país e ameaça o Centro-Oeste

Os impactos de eventos climáticos extremos associados ao fenômeno El Niño evidenciam a fragilidade das cidades brasileiras frente a chuvas torrenciais, alagamentos, secas severas e altas temperaturas. Dados da Confederação Nacional de Municípios (CNM) apontam que cerca de 7 milhões de pessoas já sofreram os impactos de desastres naturais em mais de mil localidades desde julho de 2026, acendendo um alerta para a necessidade de maior preparação governamental e civil.

Vulnerabilidade na distribuição e na agricultura

Especialistas apontam que a instabilidade climática ameaça a cadeia de suprimentos e o agronegócio, especialmente em estados como Goiás, onde a economia depende fortemente da produção agropecuária e de malhas logísticas terrestres. Além das intempéries diretas sobre as lavouras, crises internacionais e flutuações no custo de combustíveis encarecem o frete e refletem diretamente no preço dos produtos nos supermercados.

O engenheiro agrônomo Antônio Pasqualetto, professor da PUC Goiás e do IFG, destaca que o país convive com desigualdades estruturais de acesso e renda. “A fartura que temos não significa necessariamente que você possa ter uma boa distribuição. Nós já somos um país que tem extremos no acesso das pessoas, das famílias, extremos de renda e muitas pessoas em vulnerabilidade social, carentes de alimento”, afirmou ao Jornal Opção.

O especialista também ressalta o peso do transporte rodoviário na formação dos preços. “Quando você tem guerras, como é o caso do Oriente Médio, e afeta os combustíveis, isso eleva o preço e reverbera no país, porque grande parte do transporte dos alimentos está no combustível dos veículos nas vias terrestres”, explicou.

Em polos produtivos e centros urbanos goianos, como Goiânia, Aparecida de Goiânia, Anápolis e Rio Verde, a quebra de safras ou a escassez de oferta pode gerar desequilíbrios drásticos nos custos e na disponibilidade de mantimentos.

Crise hídrica é o principal desafio regional

No Centro-Oeste, o maior motivo de apreensão reside na segurança hídrica. A queda no volume de chuvas, somada ao crescimento demográfico e à expansão econômica, intensifica a pressão sobre rios e mananciais estratégicos, a exemplo do Ribeirão João Leite e do Rio Meia Ponte, que suprem a capital goiana.

Um levantamento da Universidade de Brasília (UnB) aponta uma retração média de 3,7 milímetros de precipitação ao ano na região ao longo das últimas três décadas. Para Pasqualetto, o fluxo migratório acentua esse desequilíbrio: “Nós não inauguramos um rio a cada dia e nós estamos tendo um fluxo migratório para o Centro-Oeste. […] Ao mesmo tempo, esse avanço populacional para o centro do país traz consigo uma maior demanda por água”, pontuou.

O professor enfatiza que a escassez de água compromete simultaneamente a produção de alimentos, a geração de energia e o equilíbrio climático. Quando ocorrem tempestades isoladas, a infraestrutura atual muitas vezes falha em reter o recurso, deixando a população exposta tanto à falta quanto à deterioração da qualidade hídrica.

Recomendações e estoques de emergência

Diante desse panorama, governos de nações europeias e entidades de defesa civil sugerem que as famílias mantenham reservas domésticas capazes de suprir necessidades básicas por pelo menos 72 horas, reduzindo a dependência imediata de redes públicas e supermercados em situações críticas.

A medida preventiva não indica escassez iminente, mas busca blindar a população contra surtos de pânico ou colapsos logísticos temporários. “Seria, na verdade, uma demonstração de preocupação que não se restringe só ao governo, mas à sociedade. Um princípio de precaução, de você conseguir sobreviver alguns dias sem necessariamente um apavoramento, uma situação que leva ao descontrole social”, ressaltou o professor.

O kit de sobrevivência recomendado inclui água potável — calculada em três litros diários por pessoa —, alimentos não perecíveis de consumo rápido, medicamentos contínuos, itens de primeiros socorros, lanternas, pilhas, rádios e uma quantia em dinheiro para eventuais falhas nos sistemas digitais e bancários. “Essas coisas básicas, juntando ainda com alguns produtos de higiene, complementam um kit para você se manter ou manter sua família com mais segurança durante períodos de crise”, acrescentou.

Em âmbito institucional, a Federação Goiana de Municípios (FGM), amparada por diretrizes da CNM, tem cobrado das administrações municipais a atualização de planos de contingência, o mapeamento de áreas de risco e a integração entre a Defesa Civil e o Sistema Único de Assistência Social (Suas).

“São todos cenários possíveis, mas eles dependem dessa proatividade governamental de orientar a população para que, numa situação que não está adequada, a gente fique em atenção e não tenha necessidade de entrar em estado de alerta”, concluiu Pasqualetto.

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