O ex-presidente paraguaio Santiago Peña foi transferido na noite de sexta-feira (6) para o Regimento de Escolta Presidencial, uma instalação militar das Forças Armadas em Assunção. A decisão aconteceu horas depois de o Senado aprovar o seu impeachment, alterando o status jurídico do político que cumpria prisão domiciliar determinada pelo Ministério Público e tinha depoimento marcado para a manhã seguinte.
Protestos e tensão na capital
Cidadãos se concentraram em frente à residência do político durante a noite, resultando em tumultos e confrontos com as forças de segurança. Registros da imprensa local evidenciaram a revolta popular, com o lançamento de ovos e ofensas direcionadas ao automóvel que transportava o ex-mandatário para o quartel militar encarregado da segurança de autoridades.
A revolta popular nas ruas refletiu o descontentamento com a gestão econômica recente e a crise financeira que atingiu centenas de milhares de cidadãos no país sul-americano. Uma manifestante presente no local expressou sua indignação em entrevista à agência Reuters:
“Da noite para o dia, há pessoas passando fome, pessoas que não têm como pagar a passagem de ônibus, pessoas que não têm o suficiente para viver amanhã. Por quê? Por causa de Santiago Peña e de todo o grupo Vázquez. Por quê? Porque eles não conseguiram controlar sua ganância, não conseguiram pensar no povo paraguaio, que hoje não tem o suficiente para sobreviver amanhã”
Origens da crise institucional
O estopim para a queda do governo foi a quebra do banco Ueno, pertencente ao Grupo Vázquez, cuja liquidação foi decretada pelo Banco Central na terça-feira (3) após a identificação de rombos na solvência decorrentes de empréstimos a empresas associadas. Peña, que assumiu o poder em 2023, manteve ações na holding até março do ano anterior e foi alvo de graves acusações por parte dos adversários políticos.
Acusações formais e defesa
A oposição imputou ao ex-presidente crimes como conflito de interesses, interferência nas agências reguladoras, ocultação institucional e desvio de fundos de previdência social, visto que a instituição financeira custodiava valores expressivos de depósitos públicos e aposentadorias.
Durante a sessão legislativa que antecedeu a destituição, a deputada oposicionista Rocío Vallejo criticou severamente a condução do caso:
“Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente… o senhor é a origem desse monstro que criou”
Em sua defesa nas redes sociais antes de deixar o cargo, o político prometeu que os culpados pelas falhas financeiras enfrentarão os tribunais e sancionou legislação voltada a acelerar o ressarcimento dos correntistas afetados. Em pronunciamento, ele declarou: “Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”.