Imagine estar em casa, perceber o som da televisão diminuir sozinho e, ao conferir o cômodo, dar de cara com uma criança desconhecida. Esse enredo digno de filme de terror faz parte do folclore urbano de Goiânia, imortalizado na figura de Pitibá, um suposto menino fantasma que teria assombrado uma residência na Rua 57, localizada no Setor Central. O caso intrigante foi resgatado e documentado recentemente em um estudo acadêmico da Universidade Estadual de Goiás (UEG).
Origem dos relatos assustadores
A difusão dessa narrativa começou por meio de depoimentos de antigos moradores do imóvel, cujo endereço exato permanece em sigilo para proteger a privacidade dos donos. Entre os relatos compartilhados, destacam-se as memórias da estudante Camilla Russo, que apontou que os fenômenos estranhos iniciaram antes mesmo de sua família se mudar, período em que um primo afirmava conversar com um garoto invisível chamado Pitibá.
Com a ocupação da casa, a situação evoluiu para episódios de pânico. A jovem relatou que, enquanto estava acompanhada de uma funcionária doméstica na cozinha, o volume do aparelho de som baixou sem qualquer interferência humana. Ao investigarem o barulho, as duas se depararam com um menino misterioso. Tomada pelo pavor, a trabalhadora agarrou a moradora e fugiu para a garagem em busca de socorro com os vizinhos. Conforme os registros, o episódio gerou tamanha repercussão que a família passou a ter imensa dificuldade para contratar profissionais dispostos a prestar serviços no local. Vale ressaltar que não há qualquer evidência física ou comprovação científica que valide a veracidade dos eventos paranormais.
O estudo acadêmico sobre o folclore goianiense
A menção oficial ao nome da entidade infantil consta na dissertação intitulada Pelas ruas de Goiânia: evocando lendas urbanas como patrimônio imaterial (2000–2023), escrita pelo historiador Luiz Felipe Pereira Nunes. O trabalho, defendido no fim de 2024 no Mestrado Profissional em Estudos Culturais, Memória e Patrimônio da UEG, catalogou 17 mitos urbanos na capital goiana, categorizando o caso da residência central como uma lenda tradicional.
A pesquisa aborda a figura infantil dentro do contexto do patrimônio imaterial, embora reforce que não existem dados biográficos, registros de óbito ou provas materiais que atestem a existência da criança ou a movimentação inexplicável de objetos dentro do cômodo.
A conexão com a história trágica da cidade
Um aspecto curioso que permeia a história é a proximidade geográfica da residência com uma área afetada pelo dramático acidente radiológico com césio-137, ocorrido em setembro de 1987. A tragédia teve início após a remoção de um equipamento de radioterapia de uma clínica abandonada, gerando contaminação em massa, óbitos e forte impacto na população local.
Embora a literatura popular aproxime os dois fatos devido à localização, os pesquisadores enfatizam que a tragédia histórica é amplamente documentada por órgãos oficiais, enquanto o mito de Pitibá sobrevive estritamente no âmbito da tradição oral e do imaginário popular coletivo.
Mapeamento do turismo misterioso
O levantamento acadêmico coordenado por Luiz Felipe Pereira Nunes identificou dezenas de narrativas fantasmagóricas em solo goiano, sendo 17 delas concentradas na capital. Entre os pontos turísticos e históricos citados na pesquisa figuram o Teatro Goiânia, o Centro Cultural Martim Cererê, o Cemitério Santana, o Parthenon Center e o Colégio Santa Clara.
A alta densidade de causos na região central demonstra como a memória urbana se constrói e se perpetua através das gerações. Como desdobramento do estudo, o autor criou o guia Histórias para não dormir, idealizado para incentivar o turismo cultural na região. Embora o paradeiro exato da casa do garoto fantasma continue envolto em mistério, a lenda permanece viva como um dos grandes enigmas folclóricos de Goiânia.