A roupa precisava ser idêntica à da fotografia. A calvície também. Para completar o boneco que representaria o pai que já faleceu a filha acrescentou mais um detalhe: ele gostava de cerveja. A artesã Valdirene Santana Filgueira Novais, de 49 anos, reproduziu as características do homem e colocou uma miniatura da bebida ao lado da peça. Esse é um dos trabalhos que Val, como é conhecida, produz em Goiânia para famílias que querem transformar a imagem de alguém especial em uma lembrança de pano.
Personalização e precisão nos mínimos detalhes
Além das características físicas, ela procura reproduzir detalhes que ajudem a identificar a pessoa, como roupas, acessórios e objetos que faziam parte de sua rotina. Artesã há 28 anos, Valdirene começou a produzir peças personalizadas a partir de fotografias em 2022. O trabalho pode ser feito de duas formas: com o rosto pintado a partir da imagem enviada pela família ou com traços mais simples, que valorizam características marcantes da pessoa.
Em uma outra encomenda, Valdirene reproduziu uma senhora de cabelo curto e óculos, usando uma blusa de listras pretas e brancas e uma saia preta. O pedido foi feito por Fernanda Anjos, uma das filhas da mulher, que morreu em fevereiro de 2025. Ao Mais Goiás, Fernanda contou que o processo de luto envolveu sessões de terapia para ela e a filha. Por orientação da psicóloga, a família decidiu entregar à menina, que hoje tem 12 anos, um objeto que lembrasse a avó. Foi então que Fernanda se lembrou dos artesanatos que conhecia da Feira do Cerrado, no Jardim Goiás, e encontrou o trabalho de Valdirene.
Ela afirma que a escolha da boneca foi uma das melhores decisões que tomou durante o processo. Os detalhes reproduzidos a partir da fotografia a surpreenderam pela precisão. O colar, eu fiquei encantada. Os desenhos da blusa, que são corações, ela fez tudo à mão. O trabalho dela é extraordinário. E a boneca só fez bem para nós, contou.
Trajetória e conexão com a infância
A relação de Valdirene com o artesanato começou muito antes dos bonecos de pano. Aos 8 anos, durante a infância na zona rural, ela já modelava pequenas bonecas de barro e reproduzia animais, pássaros e objetos que via ao redor. Na plantação de milho do pai, também encontrava espaço para brincar e transformar a imaginação em pequenas criações. O contato com os tecidos veio por influência da mãe, que costurava, e a transição definitiva para as bonecas ocorreu após anos de dedicação à docência infantil.
O artesanato como ferramenta terapêutica
A escolha também ganhou um significado pessoal. Valdirene conta que o trabalho com tecidos se tornou um refúgio em momentos em que enfrenta ansiedade, síndrome do pânico e outras questões relacionadas à saúde mental. Cada etapa da produção, segundo ela, ajuda a concentrar a atenção no trabalho manual e a diminuir o que chama de “caos interno”.
Além de produzir as peças de forma personalizada, ela ministra cursos presenciais e on-line para repassar as técnicas aprendidas ao longo de décadas. Para os clientes, o resultado vai muito além da costura: trata-se de um resgate afetivo que mantém viva a memória de entes queridos através de peças exclusivas feitas à mão.