O falecimento do diretor e cineasta Ricardo Spencer, encontrado sem vida aos 49 anos em seu apartamento localizado no icônico edifício Copan, no centro de São Paulo, teve como causa mais provável um quadro de sudep (acrônimo em inglês para morte súbita inesperada em epilepsia). A revelação foi feita pela família do artista após a divulgação do laudo necroscópico emitido pelo Instituto Médico Legal (IML).
O que é a sudep e por que ela ocorre
O cineasta foi achado na manhã do dia 20 de julho, sem nenhum vestígio de violência, intoxicação ou atentado contra a própria vida. O neurologista Frederico Haidar Jorge, doutor pela Faculdade de Medicina da USP e membro do Ambulatório de Esclerose Lateral Amiotrófica, esclarece que a sudep funciona sempre como uma probabilidade, sendo complexa de ser atestada com 100% de certeza.
“Só se conclui que houve sudep quando a pessoa morre, o que permite a associação entre o óbito e uma crise de epilepsia grave. Porém, a sudep ainda é uma incógnita no que tange à sua descrição. Na maior parte das vezes, uma crise dessa magnitude pode ser resolvida se a pessoa estiver acompanhada, e não terminar em morte”, afirma o especialista.
Conforme o médico, ocorrências fatais decorrentes da doença são eventos raros, estimados em uma proporção de um ou dois óbitos a cada mil indivíduos diagnosticados, aparecendo com maior frequência em episódios generalizados e agudos.
Fatores de risco e o perigo do isolamento
De acordo com o neurologista William Ferreira, líder da linha de cuidado em Epilepsia do Vera Cruz Hospital, esses cenários trágicos mostram-se mais recorrentes entre aqueles que negligenciam a rotina de remédios prescrita. “O mecanismo desse evento está relacionado com uma supressão cardiorrespiratória. Em uma crise noturna, por exemplo, o paciente que mora sozinho vai passar por isso muitas vezes sem recursos para evitar”, explica.
Suspeita-se que o diretor tenha falecido na noite anterior ao ser encontrado. Relatos do porteiro apontam que ele pediu comida via delivery, mas não respondeu aos chamados da portaria quando o entregador chegou, rompendo o contato com amigos e parentes desde então.
Como funcionam as crises e o tratamento
Especialistas ressaltam que quadros controlados dificilmente evoluem para desfechos fatais. A presença de um acompanhante durante o episódio pode inclusive auxiliar na estimulação física capaz de aliviar o sistema respiratório do enfermo.
A condição neurológica manifesta-se através de alterações temporárias na atividade elétrica cerebral, gerando crises que variam desde breves episódios de ausência até convulsões generalizadas. O tratamento com fármacos adequados é capaz de controlar até 80% dos quadros, conforme aponta a literatura médica.