Protestos e atos solenes tomaram conta de Berlim nesta quarta-feira (7) para marcar os três anos do atentado do Hamas, considerado o pior episódio da história de Israel. A data foi marcada por tensões políticas na capital alemã, culminando na ausência de Elif Eralp — cotada para assumir o cargo de prefeita — na principal cerimônia oficial do dia. Horas antes dos eventos, Friedrich Merz reforçou que apoiar a AfD é incompatível com os princípios de sua sigla.
Atos oficiais e pressões políticas na Bebelplatz
A Bebelplatz, praça historicamente marcada pela queima de livros promovida pelos nazistas em 1933, sediou um dos principais atos de memória. No local, autoridades como o ministro do Interior, Alexander Dobrindt, e o embaixador israelense Ron Prosor direcionaram críticas públicas à legenda A Esquerda, partido liderado por Eralp. O atentado do Hamas em questão deixou 1.200 mortos, 251 sequestrados e desencadeou um conflito que já vitimou mais de 74 mil palestinos e devastou a Faixa de Gaza.
“Devemos ficar alarmados quando um partido que tolera o antissemitismo em suas fileiras quer participar do governo em Berlim”, declarou Dobrindt, um dos principais nomes do governo Merz. “Os antissemitas nunca mais devem entrar no Parlamento, sejam eles de esquerda ou de direita”, afirmou o diplomata.
O impasse em torno da liderança de Elif Eralp
Filha de imigrantes turcos, Eralp conquistou a maior bancada no Parlamento de Berlim no mês passado, credenciando-se para o posto de prefeita e governadora da cidade-estado. Contudo, sua legenda enfrenta acusações de abrigar lideranças pró-Palestina e criticar duramente a gestão do premiê israelense Binyamin Netanyahu. A própria Eralp já classificou as ações de Israel em Gaza como genocídio em ocasiões anteriores.
“O 7 de Outubro é que foi um genocídio, não o contrário”, declarou o embaixador Prosor.
Para viabilizar sua indicação ao cargo de prefeita, Eralp precisa negociar uma coalizão com a centro-esquerda. Partidos como os Verdes e o SPD exigem um posicionamento mais claro da candidata, embora lideranças dessas siglas a tenham acompanhado em outro memorial montado perto do Portão de Brandemburgo, onde 500 lugares foram dispostos com retratos de vítimas.
“O tema [antissemitismo] está sendo brutalmente instrumentalizado tanto pela Esquerda quanto pela CDU”, declarou Ron Dekel, presidente da União dos Estudantes Judeus da Alemanha, responsável pela instação.
O cerco à extrema direita e a reação internacional
Enquanto a CDU utiliza as acusações contra a Esquerda para preservar seu espaço político em Berlim, a legenda lida com desgaste interno devido a aproximações com a extrema direita. Na véspera, a AfD conquistou sua primeira presidência parlamentar na Saxônia-Anhalt com apoio velado de democratas-cristãos.
“Quem vota na AfD está fazendo o jogo dos extremistas e minando sua credibilidade”, declarou Merz, sem deixar de questionar a Esquerda sobre os rumos de eventuais coligações.
Lideranças globais também se manifestaram na data. Emmanuel Macron reiterou o compromisso da França contra o antissemitismo, enquanto Ursula von der Leyen destacou que a União Europeia busca transformar um frágil cessar-fogo em paz duradoura. No Reino Unido, o primeiro-ministro Andy Burnham prometeu rigor contra atos antissemitas após uma onda de ataques a locais da comunidade judaica.
Do outro lado do Atlântico, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, condenou os atos do Hamas como crimes de guerra, mas reiterou críticas ao governo israelense e ao apoio dos Estados Unidos a Netanyahu. A data em Berlim também teve espaço para uma manifestação pró-Palestina pacífica no Checkpoint Charlie, que reuniu cerca de 100 pessoas sob forte esquema policial.