Um estudo conduzido por cientistas brasileiros revelou um alvo potencial para futuros tratamentos contra a doença de Chagas. Em testes laboratoriais, pesquisadores conseguiram interromper o ciclo de infecção do parasita Trypanosoma cruzi ao diminuir a expressão de uma de suas moléculas, impedindo seu desenvolvimento adequado em células do coração humano.
Impacto na infecção
Sem quantidades adequadas da molécula, o patógeno perde a capacidade de se diferenciar em sua forma infectante dentro dos tecidos cardíacos. A descoberta foi detalhada em um artigo publicado na revista científica Communications Biology.
“Desenvolvemos uma versão do parasita deficiente para a proteína IP6K. Ele até entra na célula e se replica, mas com dificuldade. Sua diferenciação em formas infectantes é prejudicada, o que leva à redução das formas sanguíneas a cada novo ciclo de infecção intracelular”, explica Thaise Lara Teixeira, coautora do estudo, desenvolvido durante pós-doutorado no Instituto de Química (IQ) da USP.
Teixeira atualmente atua como professora visitante no Programa de Pós-Graduação em Imunologia e Parasitologia Aplicadas da Universidade Federal de Uberlândia (PPGIPA-UFU).
Dificuldade genética
A importância da IP6K para o parasita ficou evidente quando os pesquisadores tentaram eliminar totalmente a molécula. “Quando eram deletadas as duas cópias do gene que codifica a proteína IP6K, por meio de edição gênica, os parasitas simplesmente não sobreviviam para que os testes pudessem ser feitos nas células cardíacas. Por isso, os parasitas usados no estudo ainda tinham uma cópia desse gene”, conta Bryan Etindi Abuchery, que participou da pesquisa durante seu mestrado no Instituto de Biociências de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (IBB-Unesp).
O pesquisador queniano cursa atualmente o doutorado no IQ-USP. Após se formar em biologia em seu país, ele estagiou na Unidade de Pesquisa Médica do Exército dos Estados Unidos no Quênia. “Mandei o currículo e nem estava esperando que houvesse resposta. Mas ele [Silva] gostou, me chamou para uma entrevista, conversamos bastante sobre parasitas e então fiz uma prova e passei”, conta o doutorando, em bom português, referindo-se a Marcelo Santos da Silva, professor no IQ-USP.
Diferenças biológicas
Os ensaios demonstraram que a IP6K do parasita apresenta uma similaridade muito baixa, de aproximadamente 25%, com a versão humana correspondente. Essa divergência é vista com bons olhos por cientistas, pois reduz o risco de efeitos colaterais caso um futuro medicamento seja desenvolvido tendo essa molécula como alvo.
“Se com baixos níveis de expressão de IP6K o parasita já fica tão prejudicado, é possível crer que, caso seja desenvolvido um fármaco que possa atuar especificamente nesta proteína, tenhamos um tratamento eficaz”, projeta Silva.
O ciclo do parasita
O ciclo de vida do T. cruzi envolve dois hospedeiros: um inseto vetor, conhecido como barbeiro, e mamíferos, incluindo seres humanos. A transmissão costuma ocorrer quando as fezes ou urina do inseto entram em contato com o ferimento causado pela picada.
“O Trypanosoma cruzi tem afinidade por células cardíacas. Com o tempo, essas células vão sendo destruídas por ele e pela resposta inflamatória local, sem que o sistema imune dê conta de reparar o tecido por completo. Isso gera uma perda de função do músculo cardíaco, até o ponto em que ele reduz a capacidade de contrair e de bombear sangue para o resto do corpo, o que causa o aumento do músculo cardíaco, característico da fase crônica sintomática”, detalha Teixeira.
Cenário da doença
Conforme dados do Ministério da Saúde, o Brasil registrou cerca de 400 casos da enfermidade. Globalmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que cerca de 8 milhões de pessoas convivem com o problema, majoritariamente na América Latina.
Como os remédios disponíveis datam da década de 1970, geram efeitos colaterais severos e funcionam apenas no estágio inicial, a condição permanece classificada entre as principais enfermidades tropicais negligenciadas.
Enquanto novas frentes de investigação se abrem, equipes acadêmicas dão continuidade aos trabalhos para entender melhor as funções da IP6K e avaliar a resposta do sistema imunológico humano diante de variantes modificadas do parasita.