Lojistas e donos de estabelecimentos localizados no centro histórico de São Paulo estão enfrentando quedas expressivas no movimento e prejuízos financeiros. O motivo é a falta de público provocada pelos atrasos nas obras de readequação dos calçadões, um projeto conduzido pela administração do prefeito Ricardo Nunes (MDB) que custa cerca de R$ 120 milhões.
Cronograma alterado e novos pisos
A proposta inicial da prefeitura era restaurar uma área de 100 mil metros quadrados de calçadões, o equivalente a 15 quarteirões, substituindo as tradicionais pedras portuguesas instaladas na década de 1970. No entanto, a data de conclusão foi adiada de maio deste ano para janeiro de 2027. De acordo com a gestão municipal, a complexidade do projeto exigiu ajustes no cronograma inicial em decorrência de um prazo maior do que o previsto para a autorização das escavações pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
O novo pavimento é composto por blocos de concreto interligados de aproximadamente um metro quadrado, formato escolhido para melhorar a acessibilidade e cumprir exigências federais de circulação sem barreiras. No total, as intervenções abrangem 35 vias do miolo central, incluindo ruas como Barão de Paranapiacaba, do Comércio, José Bonifácio e Álvares Penteado. A prefeitura sustenta que o objetivo é tornar o espaço público mais funcional, acessível e seguro.
Impacto na rotina e reclamações na rua Dom José de Barros
Na rua Dom José de Barros, conhecida pelo forte movimento de bares com mesas ao ar livre, o cenário atual é de crateras, lama e corredores estreitos para pedestres. Trabalhadores locais apontam o esvaziamento drástico da via durante os horários de pico. “Ninguém vem mais aqui. Não tem espaço para os pedestres nem para as mesas. Estamos muito preocupados com o que pode acontecer se continuar desse jeito”, afirma Francisco Elenilson do Nascimento, 57, funcionário de um bar na via.
Outros trabalhadores relatam dificuldades semelhantes com o barulho e a poeira persistente. “É um barulho estremecedor. Começa às 7h e dura o dia inteiro. Os clientes não querem mais vir, ninguém aguenta almoçar com uma britadeira do lado”, relata o operador de caixa Luiz Moraes, 52. Além dos impactos comerciais, moradores e novos ocupantes da região também enfrentam transtornos logísticos severos para realizar mudanças e transporte de cargas em meio aos buracos.
Achados arqueológicos e museu a céu aberto
As escavações necessárias para a modernização da infraestrutura subterrânea — que inclui valas técnicas para redes de energia, telecomunicações e escoamento de água — trouxeram surpresas históricas. Em 2023, a remoção do piso antigo revelou cerca de 500 metros de trilhos de bondes elétricos datados entre 1900 e 1940, pertencentes à antiga empresa Light. A prefeitura planeja transformar a área em um museu a céu aberto.
Enquanto as intervenções avançam, a administração municipal reforça que mantém diálogo com a vizinhança. Em nota oficial, a gestão Nunes declarou que o empreendimento exigiu cuidados adicionais para garantir a segurança dos trabalhadores e da população nas interferências no subsolo, que conta com redes de concessionárias de energia de média tensão e tubulações de gás.