El Niño ganha força nos oceanos e agência alerta para riscos globais

As águas superficiais do oceano Pacífico equatorial continuam em processo de aquecimento, elevando progressivamente a intensidade do El Niño atual. Contudo, o fenômeno climático ainda não alcançou o estágio mais extremo que especialistas denominam de “Super El Niño”. Os dados foram divulgados em uma atualização mensal publicada por uma agência climática dos Estados Unidos.

Classificação e temperatura das águas

Iniciado no mês de junho, o evento é marcado por temperaturas acima da média na região leste do Pacífico, próxima à linha do Equador, diferindo da La Niña, que resfria a mesma área. Na escala de intensidade, variações de 0,5°C a 1°C indicam um quadro fraco, de 1°C a 1,5°C configuram moderado, e de 1,5°C a 2°C representam um cenário forte. Patamares superiores a 2°C entram na categoria muito forte.

Durante o trimestre de agosto a setembro, a temperatura média atingiu 1,7°C, entrando na faixa muito forte. Olhando especificamente para o último mês, a principal zona de medição, conhecida como Niño-3.4, registrou uma marca 2,1°C acima da média histórica, conforme apontam os registros da Noaa (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica).

Probabilidade de evento histórico

A agência norte-americana destaca que a probabilidade de ocorrência de um evento histórico permanece em patamares elevados para os próximos meses.

“O maior valor registrado desde 1950 ocorreu durante o último trimestre de 1982-83, com 2,4°C. Portanto, qualquer valor acima de 2,4°C não teria precedentes em nosso registro histórico”, afirma a física Michelle L’Heureux, que lidera o monitoramento do fenômeno na agência norte-americana.

As projeções indicam 54% de chance de o patamar recorde ser atingido até novembro, saltando para 83% no período que se estende até dezembro. O relatório da Noaa também aponta temperaturas subsuperficiais mais de 10°C acima da média no Pacífico oriental, garantindo o suprimento de calor para manter o fenômeno ativo em níveis de forte a muito forte até o primeiro trimestre de 2027.

Impactos no Brasil: seca e chuvas extremas

A intensificação do fenômeno não significa obrigatoriamente um cenário mais catastrófico, mas amplia as chances de ocorrência de eventos climáticos severos. No Brasil, o padrão se traduz historicamente em excesso de chuvas no Sul e estiagem prolongada no Norte e Nordeste, consequências que já afetam o país.

Informações parciais do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais) revelam que o número de cidades em situação de seca extrema saltou de 4 para 24 no intervalo de um mês. Municípios enfrentando seca severa subiram de 153 para 197, com maiores altas concentradas em estados como Amazonas, Bahia, Amapá, Alagoas e Sergipe.

Situação no Sul e previsões futuras

No cenário oposto, temporais provocaram inundações expressivas na região Sul, atingindo com maior força o vale do Taquari e a área do rio Caí, no Rio Grande do Sul, além de localidades catarinenses. Projeções do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) apontam precipitações acima da média para o Sul, trechos do Sudeste e o leste do Nordeste, mantendo o alerta para cheias na região sulista.

Apesar da incerteza sobre a influência direta das mudanças climáticas na gênese do El Niño, cientistas reforçam que o aquecimento global potencializa a frequência e a intensidade de intempéries extremas.

Prejuízos bilionários e prejuízos municipais

Os reflexos práticos já mobilizam autoridades. Dados da Confederação Nacional de Municípios mostram que desastres climáticos afetaram 6,9 milhões de pessoas em 1.035 cidades entre julho e setembro. O balanço contabiliza 25 mortes, 8,7 mil desalojados e perdas financeiras estimadas em R$ 12,6 bilhões, somando danos privados, públicos e habitacionais.

O Nordeste concentra os maiores danos financeiros, totalizando R$ 5,7 bilhões devido à seca rigorosa que levou 319 municípios a decretarem emergência, prejudicando sobretudo o setor agrícola. Logo depois, o Sudeste acumulou R$ 4 bilhões em prejuízos decorrentes de vendavais, chuvas intensas e deslizamentos, enquanto Minas Gerais também lida com os efeitos da estiagem.

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