Estratégias de Lula e Flávio explicam menor diferença em primeiro turno

O foco em temas como endividamento, custo de vida e violência cotidiana impulsionou a campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no primeiro turno, enquanto o presidente Lula (PT) apostou excessivamente no legado de gestões anteriores. A propaganda eleitoral no rádio e na televisão para a disputa do segundo turno é retomada nesta sexta-feira (9) e segue até 23 de outubro, antecedendo a votação.

O peso das campanhas na menor diferença histórica

O senador encerrou a etapa inicial na liderança com 47,03% dos votos válidos, seguido de perto pelo atual mandatário, que obteve 45,16%. Essa margem apertada representa a menor distância já registrada em um primeiro turno presidencial desde a redemocratização do país. Pesquisadores apontam que, embora o resultado envolva múltiplos fatores, as táticas adotadas por cada comitê ajudam a decifrar o cenário.

Para Wilson Gomes, professor da UFBA, a estratégia do PT falhou ao não apresentar uma perspectiva voltada para o futuro. “Você escolhe dizer para o eleitor que ele deve olhar para trás e escolher você. E olhar para trás dá torcicolo”, afirma. O especialista destaca que faltou aos petistas um discurso consistente sobre inovações que apenas o atual presidente poderia realizar.

Discurso punitivista e a agenda de Flávio Bolsonaro

Na avaliação de Camilo Aggio, pesquisador da UFMG e do INCT.DD, a propaganda governamental também deixou de responder sobre promessas não cumpridas em 2022. “Campanhas eleitorais são sobre o futuro”, reforça. Inicialmente focado em soberania, o material do candidato à reeleição só passou a abordar a renda após a oposição pautar o tema.

No setor de segurança pública, o filho de Jair Bolsonaro explorou o roubo de celulares, a atuação de facções e a redução da maioridade penal. Segundo Aggio, a campanha do senador adotou um tom punitivista voltado para os problemas diários da população, mantendo uma estrutura enxuta. Ao abandonar pautas morais e provocações, Flávio distanciou sua imagem da do pai. “Todo mundo estava observando para ver se Flávio era Jair 2 ou se era outra pessoa”, acrescenta Gomes.

Fatores logísticos e o desgaste de longo prazo

Bruno Bolognesi, cientista político da UFPR, aponta que o opositor contou com uma capilaridade expressiva de vereadores, prefeitos e influenciadores alinhados ao bolsonarismo, articulação que o PT encontrou dificuldades para replicar em escala local. O especialista também atribui o cenário ao desgaste natural de uma legenda que ocupou a Presidência por cerca de 20 dos últimos 24 anos.

Apesar das dificuldades, a inclusão da proibição das apostas esportivas na propaganda petista foi tratada como um acerto estratégico por associar o tema ao endividamento familiar. Por outro lado, falas de Lula e da primeira-dama Janja em atos públicos geraram cortes nas redes sociais que acabaram por ampliar a rejeição, superando o alcance dos programas televisivos.

Perspectivas e os riscos do clima de vitória antecipada

Com ambos os candidatos registrando uma taxa de rejeição de 45% segundo o Datafolha, o antipetismo e o antibolsonarismo acabaram se neutralizando parcialmente. Contudo, o antipetismo pesou na concentração de eleitores de direita em torno de Flávio. “São duas eleições com dois candidatos com o piso alto e o teto baixo”, resume Gomes.

Para o segundo turno, o comitê de Lula planeja ajustes na estratégia digital e busca enfatizar o medo de cortes em programas sociais. Já a campanha oposicionista tende a preservar a mesma linha. Ao avaliarem o pleito, os analistas alertam ainda para os riscos de demonstrar excesso de confiança. “Os brasileiros não gostam muito de salto alto”, conclui Gomes, ao apontar que o clima de vitória antecipada tende a desmobilizar o eleitorado.

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