Uma plataforma de negociação de ativos digitais inaugurou na terça-feira (6) um mecanismo que bonifica apoiadores com tokens digitais. A recompensa é destinada a quem divulgar materiais promocionais, incluindo vídeos com apelos explícitos pelo voto em Flávio Bolsonaro.
Divulgação em perfil de caridade
A iniciativa vem sendo impulsionada por meio de uma página no Instagram com 12,9 milhões de seguidores, chamada hyperskidsafrica. O canal costuma angariar fundos para a construção de moradias voltadas a crianças em Uganda, na África.
Um dos materiais publicados mostra os menores africanos vestindo camisetas amarelas com a inscrição B22 token, entoando cânticos pró-Bolsonaro. A gravação ultrapassou a marca de 1,2 milhão de visualizações. De acordo com os criadores, parte da comercialização da criptomoeda seria revertida para ações sociais na região africana.
Paralelos com a estratégia de Pablo Marçal
Na avaliação do advogado eleitoral Hélio Silveira, que integrou a equipe jurídica de Tabata Amaral na disputa pela prefeitura paulistana em 2024, o formato mexe com a mesma engrenagem vista nos concursos de cortes promovidos por Pablo Marçal.
“Trata-se da mesma lógica e estrutura do que Marçal fazia –oferece incentivos financeiros para as pessoas divulgarem a campanha e o candidato”, diz Silveira. O especialista aponta ainda que a operação pode configurar doação de pessoa jurídica — a empresa criadora do ativo — para a campanha de Flávio Bolsonaro, visto que utiliza infraestrutura corporativa e bonificações monetárias para impulsionar o número 22.
Vale lembrar que Marçal acabou penalizado pela Justiça Eleitoral sob a acusação de abuso de poder econômico justamente por causa dos certames de vídeos curtos. Na ocasião, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) confirmou a inelegibilidade do ex-candidato por oito anos, entendendo que a promessa de compensação financeira violava a legislação sobre propaganda na internet.
Reações e posicionamento dos citados
Procurada pela reportagem, a equipe de comunicação de Flávio Bolsonaro informou que se manifestaria sobre o caso posteriormente.
Em nota oficial, os responsáveis pelo projeto digital argumentam que o empreendimento funciona como “um movimento que une apoio ao voto 22 e a proposta de ajudar as HypersKids a concluir sua casa em Kampala”. O texto ressalta que o ativo “defende o voto 22 por acreditar nessa proposta para um Brasil melhor. Essa é a posição do movimento, apresentada ao público geral.”
O comunicado também assegura que a bonificação de tokens ocorre de forma “independente de voto, preferência eleitoral ou divulgação de propaganda eleitoral”, pontuando que a iniciativa “não é oficial, não é endossado nem tem vínculo com nenhum político, partido, candidatura ou campanha eleitoral, e não é forma de doação eleitoral.”
Análise de especialistas em direito digital
Contudo, analistas apontam irregularidades graves na operação montada na internet.
“Vemos é uma operação complexa que envolve uso de cripto, trabalho humanitário, visibilidade em redes sociais e campanha eleitoral. É um esquema extremamente complexo e ilegal”, diz Nina Santos, pesquisadora no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital.
“Primeiro que uma pessoa jurídica não pode fazer campanha eleitoral, então isso por si só já deveria ser proibido”, diz. “Além disso, essa operação, por mais que, supostamente, leve dinheiro para crianças africanas, atrela isso a um aumento de visibilidade de materiais que estão claramente pedindo votos a um dos candidatos. Ou seja, quanto mais o vídeo é compartilhado e quanto mais a tal moeda (que em si já é propaganda política) vende, mais dinheiro, supostamente as crianças ganham.”