O anúncio de Anne Carson como vencedora do Nobel de Literatura traz consigo um desafio imediato: a tentativa de enquadrar a autora em categorias fixas. Seja como poeta, ensaísta, tradutora ou dramaturga, qualquer tentativa de definir a escritora canadense é, por natureza, imprecisa. Ela não apenas rejeita esses rótulos em entrevistas, como faz com que sua própria obra seja um exercício constante de indeterminação.
A arte de nomear para confundir
Desde o início de sua trajetória, Carson utiliza o ato de nomear como um mecanismo de desorientação. Seu primeiro poema, “Cannicula di Anna” (1984), é classificado por ela como “um ensaio”, assim como sua tese de doutorado, “Eros, o Doce-Amargo”. Obras consagradas como “Autobiografia do Vermelho” recebem a nomenclatura de “um romance em versos”, enquanto “A Beleza do Marido” é descrito como “um ensaio ficcional em 29 tangos”.
Ao adotar essa postura, a autora busca evocar a futilidade dos esforços de categorização. Ela frequentemente recorre à filosofia para sustentar essa visão. Em seus textos, cita John Cage: “Toda coisa que existe é uma celebração do nada que a sustenta”. É nesse “nada” que Carson encontra o cerne de sua literatura.
O diálogo com a antiguidade clássica
A relação de Carson com os textos em grego e latim é um pilar de sua produção. Sobre o fascínio por autores como Safo e Homero, ela declarou em 1997: “Dá para sentir uma ideia de começo em autores como Safo e Homero, que iam tropeçando pelo mundo e dizendo ‘o nome disso é ‘nada’ e este é justamente o nome certo para ele'”.
Em “Eros, o Doce-Amargo”, a autora explora o nascimento da subjetividade e do desejo através da poesia grega arcaica. É ali que ela sintetiza sua visão sobre o amor: “Quem é o verdadeiro sujeito da maioria dos poemas de amor? Não é a pessoa amada. É aquele buraco”.
Contrastes entre o clássico e o moderno
A escrita de Carson é marcada por um jogo de referências que une o mundo antigo à modernidade. Ela conecta nomes como Flaubert, Virginia Woolf e Yves Klein para iluminar novos significados. Sobre essa técnica, escreveu em “Economy of The Unlost”: “Às vezes você consegue enxergar melhor um corpo celeste ao direcionar seu olhar para outra coisa e, através desta coisa, ver o céu”.
Seja abordando o erro aritmético de um poeta grego ou discutindo o pensamento de Heidegger e Simone Weil, a autora busca incorporar o impasse da linguagem. Ela desafia o leitor a repensar “o quociente de nossas expectativas”.
Mesmo em seus lançamentos mais recentes, como “Wrong Norma”, a escritora mantém sua postura de desconstrução. Sobre a estrutura narrativa, ela reflete: “Para ser um novo tipo de romance, seria necessário abolir alguma coisa, abolir muitas coisas —enredo, consequências, o prazer que o leitor extrai das respostas negadas, a premeditação dessas coisas todas […] Sua autora corresponderia à história o tempo todo, mas essa história não seria uma história…”.
Diante da pressão editorial por uma definição, Carson prefere uma descrição minimalista: “Anne Carson nasceu no Canadá e é professora de grego antigo”. Resta saber se o título de Nobel de Literatura exigirá uma nova atualização nesta biografia tão singular quanto sua obra.