Grupo africano recusa criptomoedas de campanha pró-Bolsonaro

O grupo Hypers Kids Africa, formado por jovens e crianças de Uganda com 12,9 milhões de seguidores no Instagram, anunciou que vai devolver 120 milhões de tokens $B22. A decisão ocorre após uma onda de reações negativas do público em relação à publicação de um vídeo de apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).

Motivação da devolução e impacto político

Em mensagem enviada à BBC News Brasil, o grupo avaliou que os tokens valem cerca de US$ 20 mil atualmente e que a expectativa era usar o investimento para terminar a construção da casa do grupo. O conteúdo foi veiculado na noite de quarta-feira (7/10) e trazia menores dançando com camisetas amarelas ao som de um jingle de campanha. A iniciativa Brasil 22 Token ($B22) foi lançada em 6 de outubro e promovida pelo perfil oficial dos artistas na rede social.

“Vamos devolver os tokens a eles, para pedir desculpas a todos, porque pensamos que os tokens serviriam para nos ajudar a construir e terminar nossa casa dos sonhos. Mas houve comentários políticos demais, e não queremos partidos políticos”, diz a resposta.

“Estamos aqui para dançar e fazer as pessoas felizes, não para política. Não sabíamos que as pessoas não iam gostar.”

“Não queremos que as pessoas reclamem sempre na nossa página, porque não sabíamos que não iam gostar”, completaram. “Não podemos estar na política. Amamos muito o Brasil, de todo o coração.”

Posicionamento da campanha e natureza do ativo

A equipe jurídica da campanha de Flávio Bolsonaro declarou que acionará a Justiça nas esferas eleitoral, cível e criminal para derrubar o site responsável pela oferta dos ativos. Segundo a defesa, a autoria do portal é desconhecida e não há qualquer vínculo com a venda de criptomoedas ou contratação de perfis para propaganda.

A meme coin $B22 é classificada como um ativo digital derivado de tendências da internet, caracterizado pela alta volatilidade e ausência de valor intrínseco. Enquanto o site criador defende que a iniciativa une o engajamento político à arrecadação filantrópica para o projeto em Kampala, especialistas em direito eleitoral apontam riscos de irregularidades e violação das normas vigentes no país.

Análise jurídica e restrições legais

Para o advogado Raimundo Fernandes Neto, coordenador acadêmico da Abradep, o modelo da campanha assemelha-se a esquemas de premiação de cortes de vídeo utilizados em pleitos anteriores, configurando potencial abuso de poder econômico e financiamento indireto de propaganda.

“É uma engrenagem que junta três camadas bem inusitadas: uma moeda que vai valorizando a partir da sua interação social, um influenciador e uma causa eleitoral muito clara, que é a propaganda do $B22, vinculada ao Bolsonaro”, afirma.

“Todos esses influenciadores que vão postar e repostar, cada vez mais as postagens vinculadas ao conteúdo vão valorizar a criptomoeda, e ele receberá de acordo com esse valor. Então ele está sendo remunerado pelas suas postagens.”

“É uma forma de financiamento de influenciadores para a campanha eleitoral, só que não é dinheiro, não é de uma forma direta”, diz.

“É quase um sistema de pirâmide em que vai valer mais a partir da maior adesão e maior é a simultaneidade que se dá às postagens.”

As regras do Tribunal Superior Eleitoral proíbem estritamente a remuneração, premiação ou contratação, direta ou indireta, de influenciadores para a veiculação de propaganda política, impondo restrições severas mesmo a contas administradas no exterior.

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