Por que a reforma tributária brasileira falhou em corrigir distorções

Com mais de 40 anos de experiência na administração de empresas, atravessando períodos de hiperinflação, congelamentos, mudanças de moeda e o Plano Real, a constatação é de que grandes transformações econômicas exigem duas coisas: saber onde se quer chegar e construir um caminho possível até lá. É assim que se fundam negócios e se escolhem investimentos, um princípio oposto ao adotado na recente reforma tributária brasileira.

A distorção histórica na taxação do consumo e da renda

Todo sistema tributário tem como função primordial financiar o Estado, mas também pode atuar como contrapeso à concentração de renda e patrimônio, a exemplo de diversas economias desenvolvidas. No Brasil, contudo, o modelo gera uma inversão difícil de justificar: proporcionalmente à renda, quem pode menos paga mais, e quem pode mais paga menos. Isso acontece porque a tributação recai pesadamente sobre o consumo, e quem ganha pouco acaba comprometendo quase a totalidade de seus ganhos com produtos básicos.

Enquanto um indivíduo que ganha cem vezes mais não gasta a mesma proporção em itens essenciais como alimentação, vestuário ou combustível — optando por poupar, investir e acumular patrimônio —, o imposto cobrado no varejo é o mesmo para todos. Na prática diária do comércio, observa-se que, no preço de um saco de ração, a tributação não faz distinção entre moradores da periferia ou de bairros nobres.

A desigualdade na arrecadação do patrimônio

O patrimônio, que deveria funcionar como um mecanismo de compensação para essa assimetria, é taxado de forma desigual. Dados da Receita Federal e da Prefeitura de São Paulo revelam que, em 2025, todo o ITR arrecadado no país somou R$ 4,1 bilhões, enquanto apenas quatro distritos da Subprefeitura de Pinheiros arrecadaram R$ 3,5 bilhões de IPTU — o equivalente a 85% do ITR nacional em uma área de aproximadamente 32 km².

A falta de planejamento estrutural do novo modelo

A discussão central não envolve o aumento da carga tributária, mas sim a distribuição mais justa do que o Estado já arrecada entre consumo, trabalho, renda e patrimônio. Embora a reforma do consumo busque simplificar impostos e reduzir distorções, ela carrega uma contradição ao conceder benefícios a setores específicos, repassando o ônus para o comércio e serviços.

O equívoco fundamental residiu em tentar remendar uma colcha de retalhos em vez de projetar o sistema ideal do zero para as próximas décadas, redefinindo o peso do consumo, do trabalho, da renda e do patrimônio. O ideal seria definir uma bússola de longo prazo para realizar ajustes graduais sem elevar a carga total, permitindo corrigir a rota mesmo após a aprovação das novas regras, para evitar executar perfeitamente a coisa errada.

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