Nande Kumar não sabe o que é folgar. De segunda a sexta-feira, passa o dia enfurnado em uma das milhares de baias de uma multinacional de serviços financeiros, onde trabalha há 11 anos. Nos sábados e domingos, troca o escritório pelo volante e vira motorista de Uber no trânsito caótico de Nova Déli, onde buzinas parecem ser usadas até para afastar mosquitos.
Aos 32 anos, casado e pai de dois filhos, Kumar diz que seu descanso virou sinônimo de desperdício, porque precisa complementar a renda. “Déli tem muita oportunidade para ganhar dinheiro e eu tenho de aproveitar, já que meu trabalho semanal não fecha a conta.”
O desafio do dividendo demográfico indiano
A labuta diária de Nande Kumar ajuda a traçar o cenário daquele que é hoje um dos maiores desafios da Índia. O país que nos últimos anos se tornou símbolo mundial de tecnologia e de serviços à distância precisa, imediatamente, encontrar trabalho e renda para acomodar a maior população jovem do planeta.
A Índia é dona de um território que equivale a apenas 38% da dimensão do Brasil, mas abriga quase 1,5 bilhão de pessoas. Nesse mar de habitantes estão cerca de 370 milhões de jovens com idade entre 15 e 29 anos, uma população equivalente a quase dois Brasis.
Por décadas, esses números foram apresentados como uma vantagem indiana. A isso deu-se o nome de “dividendo demográfico”, um trunfo humano para acelerar o crescimento econômico do país. No entanto, o Ministério das Finanças da Índia reconhece que seu “principal desafio é lidar com esses números” sem qualificação e treinamento em larga escala.
Necessidade de expansão industrial e empregos
Nas contas do governo, o país precisa criar 7,8 milhões de empregos por ano, fora da agricultura, até 2030. Quase metade da força de trabalho indiana ainda está concentrada na lavoura, respondendo por menos de 20% da renda nacional. A economia cresce acima de 7% ao ano, mas as empresas de software não dão conta do recado sozinhas.
A visão dos especialistas em tecnologia
O professor V. Kamakoti, diretor do IIT (Instituto Indiano de Tecnologia) Madras, aponta a necessidade de expansão fabril.
“Até o momento, sim, somos uma superpotência de software. Temos engenheiros excelentes. Mas é necessário fechar toda a cadeia de manufatura aqui com semicondutores, precisamos ter fábricas”, diz Kamakoti.
Para mitigar a escassez de qualificação, o IIT Madras criou um programa de bacharelado online que já atendeu 50 mil estudantes. “Desses, mais de 10 mil estudantes estão quase na linha da pobreza extrema, mas têm a oportunidade de estudar na instituição número um do país”, afirma o diretor.
A realidade dos jovens e o futuro do país
A taxa de desocupação geral está em 5,1%, mas o cenário muda drasticamente entre os mais jovens. O desemprego urbano atinge 13,6%, enquanto entre as mulheres chega a 18,9%. Além disso, um em cada quatro indianos de 15 a 29 anos não trabalhava, não estudava e não recebia nenhum treinamento em 2025.
Nas ruas de Nova Déli, jovens como Mohd Sameer tentam manter o otimismo. “Não estou trabalhando agora, não tenho um emprego, mas logo sairei em busca de um lugar e sei que vou conseguir”, diz o rapaz de 18 anos. Satyveer Yadav, de 24 anos, compartilha da mesma esperança: “Acho que o futuro vai ser melhor para mim. Eu sei que posso trabalhar duro”, declara.
Com planos de alcançar a “pobreza zero” em 20 anos e uma economia desenvolvida em 2047, o governo de Narendra Modi tenta acelerar a transição. Enquanto isso, trabalhadores como Nande Kumar seguem em jornadas exaustivas de sete dias por semana, sonhando com dias mais tranquilos.