O Círio de Nazaré mobiliza multidões pelas ruas de Belém e arredores no segundo domingo de outubro, data que ganha uma importância equivalente ao Natal para os paraenses. Durante o período, moradores trocam votos de “feliz Círio” e preparam banquetes com receitas de base indígena, a exemplo do tucupi, do tacacá e da maniçoba.
Dimensões superlativas e reconhecimento mundial
Os números da festividade impressionam. Estima-se que mais de um milhão de pessoas participem dos eventos, que se estendem por vários dias. A procissão principal ocorre neste domingo (11), precedida por outras romarias com a imagem peregrina que utilizam diferentes modais, incluindo barcos e motocicletas.
Com essa magnitude, o evento se consolida como uma das maiores aglomerações católicas do planeta, dividindo espaço com a festa de Nossa Senhora de Guadalupe, no México, e a celebração do Nazareno Negro, nas Filipinas. Em 2013, a importância cultural da festividade foi reconhecida pela Unesco, que a elevou à condição de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Origens históricas e a lenda do achado da santa
Conhecida carinhosamente como Nazinha e coroada como a rainha da Amazônia, a imagem fortalece a devoção no Norte, atualmente a região brasileira com maior proporção evangélica. No livro “Tantas Marias”, o historiador Luiz Antonio Simas aborda as diversas invocações marianas presentes no país.
As raízes dessa devoção remontam a 1630, em Saquarema, no Rio de Janeiro, quando um pescador encontrou uma imagem da Virgem após uma forte tempestade. A estátua foi levada para uma capela, mas “Reapareceu no mesmo costão onde tinha sido encontrada”, aponta o autor sobre a narrativa que se repetiria décadas mais tarde no Norte.
No ano de 1700, o ribeirinho Plácido José de Souza encontrou uma representação semelhante às margens de um igarapé. A estátua desaparecia e voltava ao ponto inicial, atraindo curiosos e alimentando relatos de milagres. Desse modo, o Círio “ritualiza o misterioso retorno da santinha ao local onde fora encontrada”, afirma Simas.
A fé além da historicidade
Apesar da curiosidade acadêmica em comprovar a veracidade dos fatos, o historiador prefere respeitar a manifestação do sagrado. “Tem uma frase do Jorge de Lima, um poeta que eu adoro: a mentira para quem não crê é o milagre para quem sofreu.”
Para o antropólogo Rodrigo Toniol, pesquisador do catolicismo na UFRJ, a narrativa da santa que retorna ao seu lugar de origem simboliza a autonomia da figura sagrada frente às estruturas de poder. Na visão do especialista, isso reforça a imagem de uma Nossa Senhora “que se coloca sempre a favor do povo na relação com a autoridade eclesiástica”.
Devoção popular e pedidos alcançados
No Pará, a devoção a Nazaré supera a de Aparecida, a padroeira nacional. Os fiéis recorrem à santa para todo tipo de súplica, enfeitando o gradeado da basílica com cartazes e fitas coloridas em sinal de gratidão por curas de câncer, conquistas acadêmicas e bens materiais.
A assistente social Joana Fátima Ferreira, 78, relata uma graça alcançada por seu irmão, que pediu a intercessão da santa pela gravidez da nora após anos de tentativas frustradas. “Ele ficou impressionado, porque logo depois ela conseguiu engravidar. Essa é apenas uma pequena parte de vários impossíveis que se tornaram possíveis”, diz Joana, responsável por coordenar o tradicional almoço dominical que sucede a procissão, onde serve o clássico arroz paraense com camarão e jambu, “que é uma folhinha que dá um leve tremor na boca, muito gostoso”, diz.