Em um momento em que o pêndulo político da América Latina mudou de direção, o Uruguai ocupa posições estratégicas ao liderar temporariamente o Mercosul e a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos). Às margens da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, o chanceler uruguaio, Mario Lubetkin, concedeu entrevista para abordar os rumos da integração regional, o papel dos Estados Unidos e o cenário eleitoral brasileiro.
Relações com a Venezuela e cenário regional
Para o ministro do governo de Yamandú Orsi, a prioridade para o combate ao crime organizado deve ser a unidade regional. O país, assim como o Brasil, ficou de fora do bloco Escudo das Américas. No entanto, o chefe da diplomacia uruguaia foi categórico sobre a situação de Caracas, afirmando que não há chance alguma de retomar as relações bilaterais enquanto Delcy Rodríguez estiver no poder, “porque é tão ilegítima quanto Maduro”.
Questionado sobre a suposta polarização que prejudicaria organismos multilaterais, o chanceler argumentou que a Celac segue forte e mantém diálogos ativos com parceiros globais, como a Índia, a União Africana e a União Europeia, com foco em uma cúpula presidencial programada para junho em Bruxelas.
Segurança e o Compromisso de Santiago
Apesar de não integrar o Escudo das Américas, o Uruguai participa ativamente do Compromisso de Santiago, iniciativa de segurança lançada pelo Chile que reúne sete países da região. Sobre a atuação norte-americana, o chanceler adotou tom cauteloso: “Mais do que comentar o que a administração dos EUA está fazendo, nós nos concentramos no que temos de fazer. Partimos do princípio de que nenhum dos nossos países conseguirá resolver sozinho as questões do combate ao narcotráfico. Temos um inimigo muito poderoso. Boa sorte a cada um que aplicar aquilo que quiser. Nós sabemos o que temos de fazer e faremos isso com os vizinhos”, declarou, acrescentando que a estratégia Washington “não está nem um pouco clara”.
Eleições no Brasil e futuro do Mercosul
Sobre a corrida presidencial brasileira, Lubetkin defendeu eleições limpas e transparentes, alertando para o risco real de interferência tecnológica externa. Com relação à proposta do senador Flávio Bolsonaro (PL) de retirar o Brasil do bloco comercial, o ministro avaliou que a saída não é simples devido à complexidade dos acordos empresariais.
Caso o opositor vença o pleito, o chanceler acredita que “muitas declarações feitas durante a campanha eleitoral são impraticáveis quando se assume o governo”, reforçando que “objetivamente, o Brasil perde. Não é que o Brasil, sozinho e sem todo o restante da sub-região, seja mais forte; é mais fraco. E imagino que saibam calcular e avaliar isso”.
Crise em Cuba e acordo comercial
O representante uruguaio também classificou a situação em Cuba como o momento mais grave e defendeu um diálogo franco entre Washington e Havana, além de articulações internas na sociedade cubana, destacando a ajuda humanitária enviada pelo Uruguai em parceria com o México.
Por fim, sobre o acordo entre o bloco sul-americano e a União Europeia, em vigor provisório desde maio, Lubetkin celebrou os ganhos econômicos obtidos pelo país com a redução de tarifas e cotas, projetando superar US$ 100 milhões em economia no período de um ano.