O aniversário: drama político do Prime Video peca no roteiro

Quem assiste aos primeiros dez minutos de “O Aniversário” certamente terá uma grande surpresa pelas duas horas seguintes. O longa começa na festa de 25 anos de casados de Ellen e Paul Taylor. Um de seus filhos, Josh, traz pela primeira vez a nova namorada, Liz, e fica evidente o incômodo da mãe do rapaz diante da possível nora. O filme está disponível no catálogo do Prime Video e possui classificação indicativa de 18 anos, contando com produção dos Estados Unidos e direção de Jan Komasa.

Parábola política e conflito familiar

Na verdade, “O Aniversário” é uma parábola política. O roteiro mostra como os Estados Unidos são arrastados por uma onda conservadora, que rapidamente surge como influência ideológica para, em pouco tempo, se transformar em opressão violenta. O embate entre Ellen, professora liberal da universidade de Georgetown, e Liz, escritora iniciante interpretada por Phoebe Dynevor, vai muito além de um atrito comum entre sogra e nora. A jovem apresentou ideias totalitárias num trabalho acadêmico, defendendo um Estado de partido único, o que levou Ellen a contestar abertamente a tese e fez a aluna deixar a instituição.

Durante a comemoração, Liz presenteia a anfitriã com seu livro recém-lançado, escrito em parceria com Josh, que tenta ser um romancista. A obra pode ser traduzida como “A Mudança: O Novo Contrato Social”. Antes de ir embora, Liz fala à anfitriã que não tem mais medo dela. Nos cinco anos seguintes, a narrativa acompanha a consolidação dessa ideologia no país, impulsionada por um vídeo viral de Ellen atacando uma bandeira do movimento, episódio que resulta em sua demissão.

O impacto da onda conservadora nos Taylor

O avanço do domínio político afeta diretamente todos os membros da família Taylor. Além de Paul, dono de um restaurante, e Josh, que ganha sucesso ao lado de Liz, o casal tem três filhas: Cynthia, advogada ambientalista; Anna, comediante stand-up de militância lésbica; e a adolescente Birdie, que deseja ser cientista. Todos sofrem consequências severas, com destaque para Anna, que é espancada após um show crítico ao movimento, desaparecendo em seguida com suspeitas de estar morta.

O diretor polonês Jan Komasa, conhecido por “Good Boy”, estreia no cinema norte-americano com uma premissa forte, mas prejudicada por limitações na discussão política. A edição ágil garante o ritmo de um thriller, embora a trama pudesse funcionar melhor em formato de série para aprofundar as subtramas. No elenco, enquanto Phoebe Dynevor apresenta limitações evidentes, as atuações de Diane Lane e Kyle Chandler como Ellen e Paul recebem destaque positivo.

Tensões e reflexões sobre o autoritarismo

Na verdade, “O Aniversário” se dá melhor em sua faceta thriller do que na defesa de discussões políticas sobre autoritarismo. Falta consistência aos posicionamentos de todos diante da Mudança. O movimento funciona mais como um detonador das ações do que como objeto central, resultando em momentos perturbadores, como a desconfiança de Paul em relação a Josh, que passa a ajudar no restaurante mas pode estar rastreando o paradeiro da irmã fugitiva.

“O Aniversário” foi lançado no ano passado, mas em vários países está chegando só agora às listas dos mais vistos no streaming. Reflexo do avanço da direita pelo planeta? Talvez. Contudo, a direção poderia ter conectado melhor a ficção com o cenário político real, aprofundando o conceito da Mudança em vez de focar apenas no jogo de perseguição entre opressores e resistentes.

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