Em exames prolongados como o Enem e os vestibulares, manter o foco pode ser tão determinante quanto dominar o conteúdo. Frequentemente, a dificuldade do estudante não está em compreender a matéria, mas em sustentar a leitura do enunciado até o final ou evitar distrações ao longo da preparação.
O impacto do celular e das redes sociais na rotina
O smartphone costuma ser o principal gatilho para a perda de atenção. A estudante Rafaela Rieg, 17, aluna do segundo ano do ensino médio, relatou que sua capacidade de estudo contínuo caiu de uma hora para cerca de 40 minutos devido às notificações. “Toda vez que eu ia estudar, acabava vendo alguma notificação no celular e me distraía totalmente, parando até de fazer a lição que eu estava fazendo”, afirma Rafaela.
O hábito de consumir vídeos curtos em plataformas como o TikTok durante as pausas também cobrou seu preço, consumindo períodos que chegavam a uma hora. “Eu entrava para ver vídeos por uns 15 minutos e acabava ficando 30 minutos a 1 hora distraída com os vídeos”, relata a estudante.
A diferença entre foco pontual e sustentado
Para quem se prepara para processos seletivos, a concentração vai além de prestar atenção momentânea; trata-se de sustentar o foco e saber retomar a tarefa após uma interrupção. Rachel Guanabara, diretora da ESB (Escola Suíço-Brasileira) Rio de Janeiro, aponta que as avaliações exigem horas de atenção contínua. “É bem diferente de você estar numa concentração de uma rede social, em que você está vendo pequenos vídeos curtos e a atenção rapidamente vai de um para o outro”, compara.
Segundo a diretora, momentos de dispersão durante uma prova extensa são normais, mas é fundamental treinar a retomada do ritmo e a gestão do tempo.
A concentração vista como musculatura
Jones Brandão, professor e gerente de ensino e inovações do Sistema Positivo, faz uma analogia entre a atenção e o condicionamento físico. Blocos de estudo estruturados, leituras e simulados ajudam a preparar o vestibulando para a exigência dos exames. “Se o estudante treina e treina com foco, com interesse de ver aquilo de fato mudar, ele vai ter resultado”, afirma Brandão.
O uso excessivo de conteúdos fragmentados reduz a tolerância ao tédio, dificultando a realização de tarefas complexas e demoradas. “À medida em que o vestibulando está ali muito entregue a esse consumo de vídeos curtos, todo esse estímulo gera nele uma baixa tendência ao tédio”, explica o professor.
Como avaliar e exercitar o foco
Para medir a própria capacidade de concentração, Brandão propõe um teste prático: tentar ler por 15 minutos seguidos sem recorrer a outras atividades. “Se você conseguir terminar os 15 minutos sem nenhum desejo de olhar para tela ou sem nenhum desejo de olhar para qualquer outra coisa, é um indicador de que a concentração não pode estar tão feia assim”, pontua.
Para reverter o quadro, a recomendação é transformar a leitura em um hábito progressivo, utilizando marcações no texto e debates sobre o conteúdo lido. Rachel Guanabara reforça a necessidade de reverter a lógica dos estímulos rápidos. “Concentração é treino. Se você quer concentrar, se você quer ter mais atenção, você precisa fazer um treino para isso. O que estamos fazendo hoje em dia com os jovens é o contrário, estamos treinando o vídeo rápido, scroll infinito, passou e vai embora.”
Ao afastar o aparelho e limitar o computador às atividades acadêmicas, Rafaela conseguiu recuperar o rendimento, estendendo seus períodos de foco progressivamente. Os especialistas, contudo, ponderam que a tecnologia não deve ser banida, mas utilizada com intencionalidade. “Não temos que banir telas, banir todo tipo de tecnologia, porque as telas, as tecnologias, elas também nos ajudam”, conclui Rachel Guanabara.