Quem é o prefeito que virou símbolo de protestos na França

Vestindo terno e gravata, o prefeito de Saint-Denis, Bally Bagayoko, colocou o próprio corpo entre a tropa de choque policial e jovens manifestantes para evitar confrontos violentos. O gesto transformou o político de 53 anos em uma das figuras mais comentadas da França após os recentes protestos que reuniram mais de 250 mil pessoas em todo o país.

Intervenção em meio aos protestos estudantis

Durante a repressão policial a um grupo de jovens, alguns com o rosto coberto, o chefe do executivo municipal interveio diretamente diante dos agentes de segurança. “Parem! Parem!”, gritava o mandatário enquanto tentava conter a investida das forças da ordem.

Desde o fim de setembro, estudantes do ensino médio saem às ruas para cobrar melhorias na infraestrutura e na qualidade do ensino. A atitude do prefeito em defesa dos estudantes rendeu aplausos dos manifestantes na capital francesa, mas gerou fortes ataques de setores governistas de centro-direita e de lideranças da extrema-direita.

Declarações polêmicas e cobrança a Emmanuel Macron

Bagayoko, que é francês de origem malinesa e filiado ao partido de esquerda A França Insubmissa (LFI), causou polêmica ao comentar os atos ocorridos perto de uma escola pública de sua cidade. Na ocasião, ele pontuou que “a violência, em certo momento, pode ser legítima”, complementando logo depois: “Sempre que pudermos evitá-la, é melhor”.

A postura provocou uma denúncia oficial, na qual sua atitude foi classificada como “ambígua”, apoiada em gravações que circularam nas redes sociais onde adolescentes o chamam de “herói” e vídeos em que ele é acusado de ter aparecido “dançando” perto do fogo em uma lixeira. O prefeito rebateu as acusações, esclarecendo que sua intenção era apagar as chamas.

Ao responder às críticas de que a esquerda estaria usando as mobilizações estudantis para ganhos políticos, o governante garantiu que “o lugar de um representante eleito” é ao lado dos estudantes. Já na simbólica praça da Bastilha, durante novos atos em Paris, Bagayoko cobrou diretamente o presidente Emmanuel Macron para “pedir desculpas” aos familiares dos jovens que ficaram feridos durante as ações policiais.

Trajetória marcada por debates e ataques

Antes de chefiar a administração municipal da localidade mais populosa ao norte de Paris — uma das regiões mais pobres da área metropolitana —, Bagayoko atuava como executivo da RATP, a companhia de transporte público parisiense. Sua vitória eleitoral em março representou um marco histórico para a esquerda local, embora tenha ocorrido em meio a uma onda de boatos e ofensas de teor racista promovidas por opositores.

Tensões com as forças de segurança

Entre os episódios de desinformação enfrentados na campanha, opositores espalharam falsamente que o político muçulmano teria se referido ao município como “cidade dos negros”. Na realidade, a fala do mandatário tratava da tradicional alcunha histórica de “cidade dos reis”, alusão à necrópole monárquica abrigada na catedral gótica situada em frente ao prédio da administração municipal.

Além disso, o plano de governo de Bagayoko desperta resistências nas autoridades nacionais devido a propostas polêmicas, como o projeto de retirar o armamento letal da polícia municipal e suas frequentes denúncias sobre abusos policiais. O mandatário também foi alvo de investigações abertas pela Promotoria sobre suposto uso indevido de verbas e contratação irregular na época em que exercia mandato de vereador, acusações que a própria RATP já contestou publicamente.

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