Vivenciar episódios de preconceito racial gera um trauma psicológico comparável ao estresse pós-traumático de um acidente automobilístico. A diferença crucial, no entanto, é que a agressão racial não é um evento isolado, mas uma repetição constante na vida de homens e mulheres negros.
O peso das microviolências e o estresse crônico
O psicólogo e psicanalista Lucas Veiga aponta em sua obra que as pessoas negras lidam diariamente com microviolências, a exemplo de abordagens desconfiadas de seguranças e injúrias raciais enraizadas na estrutura social. Dados do Datafolha de 2024 reforçam esse cenário ao indicar que 56% dos brasileiros pretos declaram sofrer algum tipo de discriminação.
“Como uma pessoa que é vítima de um caso de racismo toda semana se cura do estresse pós-traumático se aquilo que causa o trauma continua se repetindo?”, questiona Veiga.
Diante da impossibilidade de erradicar o preconceito racial a curto prazo, o especialista defende a chamada “clínica do impossível”, conceito que busca mitigar danos e resgatar a subjetividade dos pacientes.
Tornar-se negro e resgatar a autoimagem
Inspirado nos estudos de Neusa Santos Souza e Frantz Fanon, o autor explica que a violência racial ataca diretamente os traços físicos e a cor da pele, fazendo com que o indivíduo projete a culpa da opressão sobre si mesmo e desenvolva uma relação de rejeição com o próprio corpo.
“Nosso corpo é nossa primeira casa. É com esse corpo que a gente vive e exercita a nossa humanidade”, diz o psicólogo. “A pessoa pode, de alguma forma, desenvolver uma relação de negação do próprio corpo. Então, esse ódio que é projetado sobre o corpo negro pode ser introjetado e a pessoa passa a se odiar.”
O papel da terapia como um território de proteção
Para romper com esse ciclo de culpa e baixa autoestima, o processo terapêutico deve funcionar como um quilombo contemporâneo, devolvendo à sociedade racista a responsabilidade pelas agressões. O objetivo é fortalecer a identidade sem limitar o indivíduo apenas à dor da discriminação.
“É tornar-se negro, que tem a ver com a criação de uma identidade negra fortalecida e um senso de valor, para que eu possa ser eu mesmo.”
Rotas de fuga e a afirmação da vida
Mesmo diante de um cenário estrutural adverso, a obra ressalta que a existência negra não pode ser totalmente capturada pela opressão. A grande resposta a essa realidade é a criação de rotas de fuga cotidianas, simbolizadas na história real do avô do autor, que mesmo enfrentando transtornos psiquiátricos e o racismo, construiu uma vida repleta de afeto e alegria.
“A nossa maior vingança ao racismo é viver bem”, diz Veiga.
O livro convida os leitores a construírem suas próprias alternativas de cura e bem-estar, reafirmando o direito de ocupar os espaços com altivez e dignidade.