Uma transformação ambiental drástica e considerada irreversível remodelou a paisagem da Amazônia atlântica em um intervalo de apenas 15 anos. O rio Araguari, um dos principais cursos d’água do Amapá, perdeu sua ligação com o oceano Atlântico após ter seu fluxo desviado para o rio Amazonas. O desaparecimento da foz e a dessecação do trecho terminal são apontados por pesquisadores, órgãos ambientais e autoridades públicas como reflexos diretos do pisoteio de milhares de búfalos criados de maneira irregular na região.
Como os búfalos redesenharam a hidrografia local
A marcha contínua dos rebanhos, frequentemente conduzidos em fila rente às divisas de propriedades, abre sulcos no solo úmido conhecidos como ravinas. Com as chuvas e a força das marés, essas fendas se alargam até formarem canais profundos que chegam a superar 1 quilômetro de extensão. A água do Araguari passou a ser drenada por essas valas artificiais — com destaque para a de Uricurituba —, abandonando o curso histórico e assoreando cerca de 173 km² do leito.
Embora cientistas, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Ministério Público Federal (MPF) identifiquem a pecuária bubalina como o motor central dessa alteração, o fenômeno também sofre influência de hidrelétricas instaladas na bacia e de dinâmicas naturais de deposição sedimentar da foz amazônica.
Rebanhos ilegais avançam sobre reserva federal
O epicentro do conflito ecológico situa-se no município de Cutias, a 140 quilômetros de Macapá. É lá que se encontra a Reserva Biológica (Rebio) do Lago Piratuba, unidade de conservação de proteção integral onde qualquer atividade produtiva é proibida por lei. Mesmo assim, estima-se que cerca de 25 mil búfalos ocupem o interior da reserva, atraídos pelas vastas áreas alagadas.
Documentos do MPF apontam a existência de cerca de 40 fazendas atuando na Rebio e em seu entorno imediato. Em vistorias recentes, cercas de madeira e habitações foram registradas sobre o próprio leito ressequido do rio, consolidando a ocupação de terras públicas da União.
Grandes criadores e disputas judiciais
Entre os alvos de medidas judiciais está Aguinaldo Lopes da Silva, conhecido como Naldo Góes, titular de sete propriedades e de mais de 6.000 animais vacinados dentro da reserva. Acionado pelo MPF por cercar o leito seco para expandir pastagens, ele recebeu prazo de um ano da Justiça Federal para retirar as cabeças de gado da área demarcada após rejeitar acordos amigáveis.
Outro caso envolve familiares do prefeito de Cutias, Juscelino Rabelo Mourão Júnior (PL), autuado pelo ICMBio por erguer estruturas de madeira sem licença dentro da reserva, onde seus parentes mantêm rebanhos. Nem Aguinaldo nem a gestão municipal responderam aos pedidos de esclarecimento.
Na fronteira da reserva opera a Fazenda Alegria, pertencente a Salomão Alcolumbre Júnior, primo do senador Davi Alcolumbre. A propriedade abriga entre 40 mil e 50 mil búfalos — fatia que representa aproximadamente 16% de todo o rebanho do estado, calculado em 312 mil cabeças.
Em sua defesa, Salomão sustentou que o colapso da foz não decorre de forma preponderante dos animais. De acordo com o pecuarista, O rio possui três hidrelétricas que alteram substancialmente a vazão e a retenção de sedimentos em toda a bacia. Duas entraram em operação justamente no período em que a pororoca deixou de existir. Ele pleiteia a realização de estudos independentes para aferir o peso de cada variável.
Por meio de nota, o senador Davi Alcolumbre frisou que não detém posse, sociedade ou animais no local e não possui participação, relação econômica ou ingerência sobre a propriedade.
Erosão, fim da pororoca e êxodo ribeirinho
Os desdobramentos ecológicos atingiram duramente a população tradicional. O fechamento da barra encerrou de vez a ocorrência da pororoca, fenômeno de ondas de maré que movimentava o ecoturismo e campeonatos de surfe até o final de 2013. Além disso, os moradores enfrentam aumento da salinidade da água e a retração drástica dos lagos interiores, inviabilizando rotas fluviais históricas.
As margens em constante desmoronamento têm consumido estruturas inteiras. Na comunidade de Pracuúba, residências, escola, posto de saúde, igreja e até a pista de pouso da fazenda vizinha foram tragados pela terra que cede.
O Araguari era muito diferente, recorda o ribeirinho Omercindo dos Reis, de 74 anos. Tinha muitas praias. Agora os lagos secaram muito e tem vala para tudo que é lado. Nunca, na minha vida, pensei que a boca do Araguari ia fechar e que iam abrir essas valas.
O esvaziamento populacional também é visível no vilarejo de Bom Jesus do Araguari, conhecido como Tabaco, onde quase todos os habitantes migraram. Uma das poucas moradoras que permanecem, a funcionária pública Eliane Gomes da Silva, de 41 anos, lamenta o cenário de abandono: Aqui era animado. Agora está acabado, relata. A pororoca chegava até aqui, saía arrastando galinha e porco. A pororoca ‘metia’ em tudo, e agora não dá mais.