Pressionado pelo crescente desgaste internacional devido à condução da guerra na Faixa de Gaza, o governo liderado por Binyamin Netanyahu adotou uma nova postura diplomática. Para romper o isolamento geopolítico, a gestão israelense vem consolidando pontes com legendas da ultradireita na Europa, relativizando o histórico antissemita associado a várias dessas agremiações.
Defesa mútua e abertura a forças radicais
Essa guinada tem gerado situações de forte pragmatismo político. Após a veiculação de reportagens que apontaram escritos de cunho antissemita ligados a Jordan Bardella, principal dirigente do partido Reunião Nacional, na França, o próprio ministro israelense encarregado do Combate ao Antissemitismo, Amichai Chikli, interveio publicamente em favor do político francês.
Ao ressaltar que a liderança francesa esteve nos cenários atingidos pelas ações terroristas de 7 de outubro de 2023, Chikli afirmou na rede social X que Bardella “é uma das vozes mais claras da Europa contra o Hamas”. Caso Marine Le Pen conquiste a presidência em 2027, Bardella desponta como forte postulante a primeiro-ministro.
A articulação também abrange o Partido da Liberdade (FPÖ), na Áustria, agremiação estabelecida historicamente por antigos nazistas, com a qual Tel Aviv iniciou um processo de reaproximação. Movimentos semelhantes de aproximação envolvem líderes extremistas na Espanha, no Reino Unido e na Suécia, ancorados em pautas compartilhadas a respeito de imigração e do islã. No continente americano, uma guinada parecida aproximou Israel de mandatários da direita radical eleitos na Argentina e na Colômbia. Por ora, a legenda alemã AfD permanece como a principal exceção à investida israelense.
O papel do chamado “certificado kosher”
Esse alinhamento é visto com apreensão por diplomatas de carreira. Jeremy Issacharoff, que exerceu o posto de embaixador de Israel em Berlim entre 2017 e 2022, adverte que as forças da extrema direita europeia buscam obter “uma espécie de certificado kosher” para amenizar suas origens diante do eleitorado de centro.
“Entendo perfeitamente o benefício que podem tirar disso. Mas, para Israel, não vejo nada além de um ataque a seus valores e à sua reputação no cenário internacional”, declarou Issacharoff à agência AFP, pontuando que o impacto dessa convivência deveria ser mensurado em relação à segurança das comunidades judaicas na Áustria e na França.
A preocupação também ecoa em território britânico. Lideranças judaicas locais manifestaram inquietação após o ativista radical Tommy Robinson discursar em Jerusalém com mensagens abertamente anti-islâmicas.
Bloqueio a sanções e estratégia nos blocos multilaterais
Em paralelo às novas parcerias, Tel Aviv tem intensificado os atritos com líderes ocidentais tradicionais. O ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, solicitou ao comandante da sigla britânica de ultradireita Reform UK que combatesse as punições comerciais estabelecidas pelo governo do Reino Unido contra artigos oriundos de assentamentos na Cisjordânia ocupada. Representantes do gabinete de Netanyahu também direcionaram ataques ao chanceler Ed Miliband, descendente de refugiados judeus e crítico da ocupação.
De acordo com o pesquisador Azriel Bermant, ligado ao Instituto de Relações Internacionais de Praga, o plano visa inviabilizar medidas unificadas da União Europeia contra Israel. A tática replica a relação mantida por Netanyahu com o ex-premiê húngaro Viktor Orbán, que bloqueou resoluções comunitárias desfavoráveis a Tel Aviv enquanto explorava ataques antissemitas contra o financista George Soros.
Um diplomata israelense que já chefiou missões na Europa resumiu os riscos dessa aposta sob condição de anonimato: “Um dia, esses governos voltarão a passar da direita para a esquerda, ou vice-versa. E, se você se aliou à ultradireita, acaba sendo rotulado de determinada maneira”.