O setor fabril brasileiro permanece como um dos maiores reflexos dos desequilíbrios estruturais da economia nacional. Longe de apresentar uma recuperação consistente, a trajetória recente da produção industrial revela um quadro contínuo de estagnação nas últimas décadas.
Distância crescente em relação ao mercado internacional
O fosso produtivo fica ainda mais evidente na comparação externa. Estatísticas da Organização para o Desenvolvimento Industrial da ONU apontam que a produção do país recuou 14% no intervalo entre 2011 e julho deste ano. Em contrapartida, a mediana registrada por 68 nações apresentou expansão de 27% no mesmo período.
Salvo exceções pontuais — como os segmentos de papel e celulose e de coque e refino de petróleo —, a maior parte das áreas produtivas locais perdeu fôlego. O descompasso atinge níveis críticos na fabricação de equipamentos eletrônicos e computadores: enquanto a média global cresceu expressivos 51%, a produção brasileira amargou uma retração de 40%.
Contrastes regionais e a força do setor primário
Os números de produção regional apurados pelo IBGE mostram que o desempenho do país é fortemente heterogêneo e dependente de matérias-primas. No acumulado desde janeiro de 2002, a atividade industrial geral subiu tímidos 13,8%. Enquanto a indústria de transformação avançou apenas 10%, o segmento extrativo disparou 55,7%.
Esse dinamismo beneficiou estados ancorados em recursos naturais e no agronegócio:
O Pará, sustentado pela mineração, acumulou alta de 119,2% desde 2002. Já Goiás, impulsionado pelo polo de Anápolis e pelas cadeias do campo, cresceu 107%. No extremo oposto, estados com bases fabris mais tradicionais sofreram perdas no período, com a Bahia recuando 7,4% e o Ceará registrando queda de 8,6%.
O esgotamento após o ciclo de alta
A aparente solidez dos dados acumulados desde 2002 mascara a desaceleração observada após o pico das commodities. Ao tomar como referência a média de 2011, o volume total da produção nacional encolheu 13,3%. Mesmo os estados que lideraram os ganhos viram seu ritmo diminuir sensivelmente: a alta paraense moderou para 18,7%, enquanto a goiana ficou em 27%.
Fatores estruturais e saídas para a recuperação
Deficiências crônicas na infraestrutura logística e um longo histórico de protecionismo pesam sobre a competitividade local. Pesquisas do economista Richard Baldwin, do IMD Business School, indicam que a integração comercial de economias emergentes com mercados desenvolvidos é fundamental para expandir a presença e a relevância fabril.
A superação desse cenário depende de reformas estruturantes. A efetivação de acordos internacionais, a exemplo da parceria com a União Europeia, desponta como alternativa para elevar a produtividade. Da mesma forma, a simplificação proporcionada pela reforma tributária deve aliviar o peso sobre as fábricas, enquanto a disciplina fiscal contínua é vista como requisito indispensável para permitir juros mais baixos e viabilizar novos investimentos.