O resultado das urnas gerou uma onda de cobranças e reflexões que ultrapassou a esfera partidária e atingiu em cheio o jornalismo profissional. Em um cenário digital dominado por redes sociais, inteligência artificial e conteúdos que viralizam com rapidez sem depender dos meios tradicionais, a cobertura política demonstrou um descompasso evidente com a realidade ao subestimar a força da direita ideológica, evidenciando a urgência de “descer do salto” diante dos novos rumos do eleitorado.
O fenômeno Eduarda Campopiano e a miopia editorial
A eleição de Eduarda Campopiano (PL) simboliza com clareza essa distância entre o radar midiático e a preferência popular. Ela conquistou a maior votação deste ano para a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), atingindo a segunda melhor marca da história da Casa, atrás somente de Janaína Paschoal em 2018. Em âmbito nacional, figurou como a terceira parlamentar mais votada do país, superada apenas pelos correligionários Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato.
Apesar do expressivo capital político, a deputada eleita quase não recebia espaço antes do pleito. Suas raras aparições anteriores limitavam-se a menções periféricas: figurou em abordagens pontuais sobre candidaturas conservadoras, em listagens de engajamento no Instagram, em episódios de atrito estudantil na USP e até como anedota após ser interrompida por barulhos de flatulência em uma sessão legislativa de Praia Grande, além de servir como “escada” para falas de terceiros em 2022.
Ao se deparar com a expressiva marca de cerca de dois milhões de votos recebidos por Campopiano, parte considerável das análises optou por reduzi-la ao rótulo caricatural de “antifeminista”. Ainda que a própria parlamentar sustente esse personagem, o papel jornalístico exigia uma investigação profunda a respeito de sua representatividade e das motivações de sua base eleitoral.
Distorções na leitura do Congresso Nacional
O equívoco analítico também se repetiu na esfera federal. Mesmo diante do crescimento maciço de bancadas de direita e do protagonismo de suas candidatas, análises apressadas sustentaram que “a onda conservadora que ampliou sua presença no Congresso não produziu, na mesma proporção, uma onda de mulheres à direita”, desconsiderando a linha histórica de ocupação desses espaços.
Além disso, disseminou-se a visão de que a “identidade política dessas parlamentares pode dificultar acordos”, insinuando entraves de governabilidade exclusivamente vinculados a um dos lados do espectro ideológico. Leitores criticaram abertamente essa postura. Para o leitor Tito Bernardi, “A reportagem tem dado tratamento desrespeitoso e equivocado a deputados da direita”. Ele pontuou ainda que os analistas “e seus jornalistas não perceberam a onda da direita” e “parecem seguir uma cartilha pré-concebida”, “tratando-os como estranhos, esquisitos e fora da realidade, apresentando aos leitores uma visão distorcida e parcial”.
Reações de leitores e o tratamento a Flávio Bolsonaro
As queixas também alcançaram a ala opinativa dos veículos. O médico Raphael Câmara, conselheiro federal de medicina pelo Rio de Janeiro e ex-secretário do Ministério da Saúde na gestão de Jair Bolsonaro, manifestou incômodo com o que considerou proselitismo dos colunistas: “E foi provado ontem [domingo da eleição] que não reflete a opinião do Brasil. A maioria votou em Flávio. Não porque sejamos nazistas e loucos. Mas porque defendemos valores.”
Em contrapartida à pouca atenção dada às bases parlamentares conservadoras, a cobertura dedicada a Flávio Bolsonaro (PL) foi apontada por leitores como condescendente. O senador chegou a ser retratado como alguém que “tem dito defender a democracia e o equilíbrio entre os Poderes” em debates sobre propostas para “mudar a Constituição”. Da mesma forma, sua declaração de que “o país não vive uma democracia plena” circulou sem a devida contestação imediata das equipes de reportagem.
Embora textos de opinião institucional tenham classificado a tese de ausência de democracia como “fake news”, o noticiário diário demonstrou menor rigor crítico em relação às falas do parlamentar, sinalizando falta de equilíbrio, questionamento e contexto histórico na mediação dos fatos para o público.